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Um ano de ocupação militar no Complexo do Alemão

Miséria e opressão sob as rédeas do novo comando

Por Patrick Granja, especial para  jornal A Nova Democracia

Em novembro do ano passado, 1,6 mil soldados do exército subiam o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, para ocupar permanentemente o conjunto de favelas. A ação foi marcada por inúmeras denúncias de abusos dos agentes de repressão do velho Estado, como torturas e saques a casas e estabelecimentos comerciais de moradores. Depois de um ano, o regime de exceção imposto aos trabalhadores do Complexo do Alemão segue vigorando. No entanto, a paciência dos moradores, pouco a pouco, vai se esgotando, enquanto agrava-se o tom das denúncias das barbaridades cometidas por soldados contra a população. Tráfico varejista por exército reacionário: seis por meia-dúzia.

Com a proximidade da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, muita coisa mudou na vida do povo pobre no Rio de Janeiro. Favelas inteiras foram e continuam sendo removidas das áreas nobres da capital fluminense para dar lugar às grandes construções que irão preparar a cidade para os mega-eventos.

Em outra frente, o Estado reacionário iniciou uma corrida contra o tempo para acelerar o processo de militarização das favelas. As Unidades de Polícia Pacificadora passaram a dividir diplomaticamente o território desses guetos com os traficantes varejistas. Para o povo que habita esses locais, a opressão e a miséria seguem firmes e fortes, agora sob a chefia do velho Estado.

 Um ano de militarização

No Complexo do Alemão, o quadro é o mesmo, porém, são as tropas do exército que comandam a militarização. A ocupação pelas chamadas ‘forças de pacificação’ começou em novembro do ano passado após onda de ataques a ônibus e patrulhas policiais, supostamente orquestrada por traficantes. 106 ônibus foram incendiados na ocasião. Contudo, pouco se ouvia falar sobre o assunto nas favelas dominadas pelo tráfico, o que gerou desconfiança sobre a autoria das ações, que ocuparam por semanas as manchetes dos jornais do monopólio. Mesmo assim, Luiz Inácio prontamente patrocinou a invasão do Complexo pelos tanques do exército e marinha, comboiados pela PM e pela polícia civil do Rio de Janeiro. Na semana em que militares entraram nas favelas, 17 pessoas morreram. Começava uma nova era de opressão para os 200 mil moradores do maior conjunto de favelas da América Latina.

Não é a primeira vez que moradores das favelas do Rio são forçados a viver sob a mira dos fuzis do exército reacionário. Em 1992, semanas antes da Eco-92, militares também ocuparam várias favelas, entre elas o Complexo do Alemão. A presença de dezenas de chefes de estado imperialistas teria motivado a ocupação provisória. Em 94 e 95, o exército novamente seria chamado a participar de uma ação conjunta com a polícia: a Operação Rio, com o suposto objetivo de combater o tráfico varejista nas favelas da cidade. Em junho de 1999, nova ocupação durante a Cimeira do Rio, que envolveu autoridades de países europeus e latino-americanos. Em 2008, militares que ocupavam o morro da Providência sequestraram três jovens moradores e os entregaram a bandidos de uma favela dominada pela quadrilha rival à que dominava a Providência. Os três garotos foram torturados por horas e, em seguida, executados.

 “Serra Pelada”

Receosos com a presença de militares e policiais, centenas de moradores abandonaram suas casas por semanas e exilaram-se nas casas de parentes. A maioria, entretanto, estava presa em seus barracos, apavorada com os ininterruptos tiroteios. A reportagem de AND permaneceu durante dias no local e presenciou as exibições pirotécnicas de PMs e soldados do exército. Tiros eram disparados a esmo contra as favelas e raramente uma resposta era ouvida dos traficantes posicionados no alto dos morros. No meio do fogo cruzado, não existia lugar seguro para os moradores.

Passado o bang-bang, as casas desocupadas pelos moradores passaram a ser alvo de saques cometidos por policiais e soldados do exército. Escutas telefônicas feitas pela polícia federal flagraram traficantes negociando fugas dentro de viaturas policiais e caveirões em troca de ouro, PMs e policiais civis comentando o quanto roubaram das casa dos trabalhadores, além de vários outros crimes. Nas escutas, os agentes de repressão comparavam o Complexo do Alemão à Serra Pelada.

Na ocasião, AND já estava há uma semana no local e entrevistou moradores que tiveram roubados desde as ferramentas de trabalho de um operário da construção civil, até um cofre com 30 mil reais de um pastor evangélico. Além disso, eram incontáveis as denúncias de torturas, agressões e depredações, além do número oficial de 17 mortos na ação, número que pode ser maior, segundo moradores.

 A tão falada ‘guerra’

Um artigo recente escrito pelo professor Nilo Batista — advogado criminalista e professor do quadro permanente do Programa de Mestrado em Direito da Universidade Cândido Mendes — ilustra bem a garimpagem levada a cabo pelo exército e as polícias no Complexo do Alemão, assim como a contribuição ideológica do monopólio dos meios de comunicação à política de criminalização da pobreza nas favelas do Rio:

 “Nos jornais de 12 de fevereiro de 2011, estampou-se a prisão do inspetor Trovão, suspeito ‘de ter participado da garimpagem no Complexo do Alemão’, dentro da prática alcunhada ‘espólio de guerra’ (O Globo, p. 21). Ele não só se vestia e se sentia como um soldado em plena batalha dentro de território inimigo, mas, sobretudo, confirmava seus figurinos e sentimentos lendo os jornais. Guerra é guerra.”

 Trovão era um policial civil que ficou conhecido depois da chacina do Alemão, em junho de 2007 — uma mega-operação policial, às vésperas dos jogos Pan-Americanos, que mobilizou 1,4 mil policiais e deixou 19 pessoas mortas. Os laudos cadavéricos apontaram, semanas depois, que a maioria delas foi executada com tiros na nuca, de cima para baixo e a curta distância. No dia do massacre, Trovão foi fotografado caminhando por uma viela do Complexo fumando um charuto, entre vários corpos, vestido com a mesma farda usada pelas tropas ianques no Iraque e no Afeganistão.

 A rebelião

Nos meses seguintes, as arbitrariedades cometidas por militares no Complexo do Alemão foram denunciados inúmeras vezes por moradores. No entanto, pouco era revelado pelo monopólio dos meios de comunicação. Muitos creditavam as denúncias a supostos complôs de traficantes para diminuir a confiabilidade nas tropas.

Além das denúncias de abusos, a repressão levada a cabo pelo exército às festas de rap, funk e samba nos fins de semana no Complexo do Alemão começou a atiçar os moradores. No dia 4 de setembro, veio o estopim. Dezenas de soldados atacaram um grupo de moradores que festejava e assistia a um jogo de futebol no Morro da Alvorada — uma das treze favelas do Complexo. Vários moradores ficaram feridos por tiros de balas de borracha disparados pela tropa, incluindo jovens, idosos e mulheres. As imagens da agressão foram flagradas com uma câmera de celular por um morador do local. O video revoltou os moradores que, nos dias seguintes, espalharam faixas repudiando a presença do exército nas favelas e fizeram combativos protestos em inúmeras localidades do conjunto de favelas.

As manifestações se repetiram nos dias 5 e 6 de setembro. No segundo dia, o tom dos protestos foi radicalizado e o exército tentou dispersar os manifestantes disparando tiros de fuzil para o alto. Nesse dia, nossa reportagem estava dentro do Morro da Alvorada e acompanhou de perto a mobilização dos moradores, que se armavam com paus, pedras e fogos de artifício, prontos para responder à tirania do exército reacionário.

Imediatamente, o monopólio dos meios de comunicação criminalizou a justa luta do povo declarando que as manifestações teriam sido orquestradas por traficantes. Chegaram a dizer que bandidos tentavam retomar o Complexo do Alemão. Rapidamente, moradores interromperam os protestos, sabendo que qualquer um que fosse baleado seria acusado de envolvimento com tráfico. Como disse uma antiga moradora: “só quem mora na favela sabe o que acontece de verdade”.

Os protestos cessaram, mas os abusos das tropas do exército contra moradores ganham um tom cada vez mais assustador. Somente nas últimas semanas, nossa equipe flagrou cerca de dez militares espancando um trabalhador de 42 anos na frente de sua esposa e filhos e, além disso, entrevistamos um jovem operário que foi baleado por policiais e abandonado em um hospital da rede pública depois de ficar por duas horas a espera de socorro.

Mesmo com todas as denúncias de excessos, a militarização está longe de seu fim. Na manhã do dia 24 de outubro, o gerente estadual, Sérgio Cabral, e o ministro da Defesa, Celso Amorim, assinaram um convênio para prorrogar o tempo de permanência do exército no Complexo do Alemão. A previsão inicial era de que ocupação se estenderia até agosto deste ano. Entretanto, com essa nova prorrogação, a desocupação das favelas foi adiada para julho de 2012.

Nos dias 26 e 27, com autorização da justiça, o exército realizou mais uma operação no Complexo do Alemão, alegadamente à procura de armas e drogas. Ao fim da ação, nada havia sido encontrado. Uma mensagem gravada, emitida por um carro de som, indignou os moradores, que se indagavam que tipo de tratamento era aquele. A mensagem dizia: Senhores moradores, o Exército Brasileiro está realizando um mandado judicial em cumprimento da lei. Fechem suas portas e janelas e aguardem orientação. Quando solicitado, abra a porta e aja de maneira educada. Obedeça a todas as instruções. Qualquer ação contrária será considerada como ato hostil e receberá a resposta necessária”.

Indagado por veículos do monopólio dos meios de comunicação sobre o áudio, o comandante das tropas do exército no Alemão, general Cesar Leme Justo, se apressou a dizer que aquilo não era toque de recolher, mas resulta evidente que toda a população do Complexo do Alemão se encontra sitiada e à mercê do arbítrio dos militares.

Como dizem os moradores, “nada mudou. Saiu o comando vermelho e entrou o comando verde”. A mesma opressão e miséria, sob as rédeas de outro comando: o velho, apodrecido e reacionário Estado brasileiro.

Quatro operários presos e um baleado

 Dia 11 de outubro, um operário da construção, morador do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, foi baleado por policiais civis na favela da Grota. O rapaz caminhava em direção à firma onde trabalha, quando policiais da 22ª DP, que faziam uma operação na favela, foram confundidos com bandidos por soldados do exército. Os militares atiraram nos policiais, que revidaram. No meio do fogo cruzado, o trabalhador foi atingido no ombro e teria ficado por duas horas deitado no chão, sangrando, à espera de socorro.

Segundo ele, policiais o abandonaram no hospital, roubaram seus documentos e, ainda na favela, tentaram forjar suas digitais em uma arma e em um saco com drogas.

Eu estava indo na firma onde eu trabalho para resolver um problema. Quando eu ouvi os tiros, tentei correr por uma viela e, na mesma hora, senti um tiro me atingir pelas costas. Quando olhei, vi o policial atrás de mim. Na minha frente, vi que tinham homens do exército respondendo aos tiros da polícia. Eles se juntaram depois e começaram a discutir. Enquanto isso, eu fiquei durante duas horas sangrando no chão. No hospital, eles pegaram a minha identidade e meu título e, quando eu fui ser atendido, outro PM que estava no hospital disse que os policiais civis tinham ido embora com os meus documentos — conta o rapaz que não quis se identificar.

Em outro caso, no dia 18 de outubro, cinco moradores do Complexo do Alemão foram presos por homens do exército próximo à estação do teleférico do Alemão, acusados de desacatar os militares. Quatro deles são operários da obra do Programa de Aceleração do Crescimento no conjunto de favelas. Os trabalhadores ficaram quatro dias presos e, na cadeia, teriam sido agredidos por um agente penitenciário e ficado dias sem dormir, se alimentar e até sem beber água. Eles negam as acusações e afirmam nunca terem sofrido tamanha humilhação.

Eu estou revoltado e quero justiça. Nós não fizemos nada e, mesmo que tivéssemos feito, nada justifica o que nós passamos. Ficamos sem água e comida. Nossas esposas levaram água pra gente, mas não nos entregaram. Tínhamos que fazer nossas necessidade em um buraco. Ficamos em uma cela quente e sem janelas e ainda apanhamos de um agente penitenciário. Trabalho desde jovem. Somos pessoas trabalhadoras, gente de bem. Nunca pensamos que passaríamos por uma humilhação dessas — conta um dos operários.

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