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Comerciantes do Morro da Mangueira são atacados pelos tratores da prefeitura

Por Patrick Granja / A Nova Democracia

No rumo da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Rio de Janeiro, os gerenciamentos de turno seguem atropelando o direito a moradia de milhares de trabalhadores pobres, expulsando-os de suas casas sem dar-lhes uma alternativa habitacional digna. Dessa vez o morro da Mangueira foi o alvo dos tratores do prefeito Eduardo Paes. A ação, que destruiu tradicionais estabelecimentos comerciais da favela, foi levada a cabo no mesmo dia em que o BOPE — a mais violenta tropa da PM do Rio — se instalou no local, abrindo caminho para mais uma UPP — Unidade de Polícia “Pacificadora”. A reportagem de AND foi ao local e conversou com algumas das vítimas dessa nova ação do gerenciamento municipal contra o povo pobre no Rio de Janeiro.

 No início do mês de julho, a reportagem de AND foi ao Morro da Mangueira conversar com um grupo de mais de 50 comerciantes que tiveram seus estabelecimentos destruídos pelo choque de ordem do prefeito Eduardo Paes. O alvo dos tratores da prefeitura foram as tradicionais tendinhas e barracas na entrada da quadra da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Segundo a prefeitura, os estabelecimentos foram removidos porque ocupavam uma área pública. No entanto, os trabalhadores, a maioria mulheres, dizem que tanto o atual gerente municipal, Eduardo Paes, quanto o seu antecessor, Cesar Maia, prometeram-lhes mundos e fundos durante suas campanhas eleitorais. Entre as promessas estavam a concessão de alvará para os comerciantes e a revitalização de seus estabelecimentos.

No mesmo dia em que o BOPE chegou à favela para dar início à militarização, agentes da prefeitura, sem notificar os trabalhadores, começaram a demolir as barracas uma a uma. Nossa equipe conversou com as vítimas desse novo episódio de abuso por parte da prefeitura contra moradores de favelas e bairros pobres no Rio de Janeiro.

Tudo aconteceu na véspera do meu aniversário. Quatro horas da tarde, eles chegaram demolindo dois trailers ali embaixo. Aí, nós fomos falar com eles, pois a maioria de nós já estava trabalhando. Eu perguntei: ‘Moço, o senhor vai demolir aqui? Porque nós não recebemos nenhuma notificação, nada’. Ele respondeu: ‘Pode começar a tirar tudo de dentro, porque nós vamos colocar tudo abaixo ainda hoje’. Aí começou o desespero — disse a comerciante Sandra Maria da Silva, de 57 anos.

— Foi tudo muito estranho, porque primeiro eles nos chamaram para uma reunião. Aí, durante a reunião começaram a demolir alguns estabelecimentos. Quando a gente chegou aqui eles já estavam destruindo tudo. De domingo pra segunda eles vieram com um documento nos dando 24 horas para tirar tudo de dentro dos imóveis. Mas não deu tempo de fazer essa desocupação. Quem conseguiu tirar tudo, tirou, mas quem não conseguiu perdeu o que tinha— conta a trabalhadora Kátia Helena Baptista, de 46 anos.

Alguns moradores disseram que estranharam o fato da prefeitura não ter aceitado fazer a reunião no local das demolições. Mesmo assim, todos queriam ouvir as explicações dos agentes responsáveis pela ação. Enquanto a reunião acontecia em uma quadra poliesportiva dentro da favela, longe dos olhos dos trabalhadores, os tratores começavam a destruir as tendinhas aproveitando a ausência dos proprietários. Na verdade, segundo alguns comerciantes, a reunião teria sido apenas um artifício para distrair os trabalhadores e impedi-los de resistir à ação da prefeitura.

Com 68 anos, dona Iracy é uma das mais antigas comerciantes do morro da Mangueira. Ela conta que não quer indenização, mas sim o seu ponto de volta. O local das demolições, embaixo do viaduto da Mangueira, era um tradicional ponto de encontro de sambistas antes dos ensaios, feijoadas, bailes e outros eventos na quadra da escola de samba ou no Buraco Quente — um dos acessos ao morro.

Desde os 15 anos que eu sou comerciante. Comecei na época em que o morro era dividido entre Chalé e Santo Antônio. Eu morava em Santo Antônio. Minha mãe morava em um barraco de zinco, aí eu abri um buraco no zinco e comecei a vender pastel de sardinha. O pessoal ficava jogando cartas e não tinha o que comer. Por isso, eu vendia pastel e cafezinho. Isso há mais de 50 anos atrás. Nós não queremos dinheiro da prefeitura. Nós queremos que o prefeito cumpra com a palavra dele e nos dê o alvará para podermos trabalhar. É o que eu preciso: passar a minha velhice tranquila. Eu abro a minha portinha ali e tenho o meu trabalho. Vou viver do quê com 68 anos? Catar latinha? — pergunta dona Iracy.

É muito triste. Lamentável. Agora eu estou desempregada. As contas não param de chegar e eu não tenho outro trabalho. Daqui que saía o meu pão, o meu leite, o meu gás. Tudo saia desse meu comércio. Agora estamos há três semanas parados sem uma solução — desabafa a trabalhadora Vilma da Glória de Souza, de 44 anos.

Segundo os comerciantes, em troca dos seus estabelecimentos, a prefeitura deu a eles barracas de lona sem água e sem luz. O trabalho é dobrado, já que a prefeitura nem ao menos ajuda os trabalhadores a montar as estruturas.

Eles nos deram umas barracas para a gente poder trabalhar na frente da quadra, mas só que sem luz, sem água e sem banheiro. Eles prometeram um banheiro químico, mas até agora não nos deram nada. Nós não temos condições de trabalhar assim. Nós precisamos trabalhar. Você pode ver que a maioria de nós somos mulheres e foi daqui que nós sempre tiramos o nosso sustento. Porque isso aqui era uma vida para nós. Eu, particularmente, estava há 15 anos aqui. Foi um pedaço da nossa vida que foi arrancado de nós, jogado fora — protesta a comerciante Mônica de Oliveira, 45 anos.

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