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Moradores denunciam abusos cometidos por PMs em favela da zona Norte do Rio

 Por Patrick Granja / A Nova Democracia

Na manhã do dia 15 de julho, policiais militares do 3° Batalhão fizeram uma operação no Morro do Gambá, no bairro Lins de Vasconcelos, zona Norte do Rio de Janeiro. Durante a ação, moradores entraram em contato com nossa redação relatando inúmeros abusos cometidos pelos policiais, como agressões e invasões de residências. Por intermédio da vice-presidente da associação de moradores, Márcia Jacinto, nossa equipe de reportagem foi ao local para ouvir os moradores. A líder comunitária é conhecida por sua árdua militância em busca de justiça para os policiais que, em 2008, assassinaram seu filho, Hanry Silva Gomes da Siqueira, em uma operação policial no Morro do Gambá.

— Eu estava na minha casa e recebi a notícia de que a polícia estava no morro e tinha entrado na casa dos outros, arrebentado portas e revirado as moradias. Eu cheguei lá em baixo e fiquei indignada, pois o caveirão [carro blindado da PM] estava estacionado na porta da creche da comunidade. Isso no horário de aula. As crianças e professores estavam desesperados lá dentro. Os PMs com fuzil na mão e as pessoas passando correndo com medo. A obra de revitalização da comunidade parou e os funcionários foram dispensados. E eles ficaram parados me filmando, mas eu já perdi o medo deles. Eles não respeitam trabalhador. Pode mostrar documento, que, mesmo assim, eles não respeitam. Só vêm aqui em horário de entrada e saída de colégio. Um absurdo. Eu me manifestei porque houve abusos contra os moradores. Eu nunca vou concordar quando eles subirem aqui para desrespeitar a comunidade. E a grande mídia não fala nada. Veio a Record, a Band aqui, mas ninguém ouviu os moradores. Só houvem a polícia. Ainda que o medo seja muito grande, os moradores estão dispostos a denunciar esses abusos — disse Márcia, que acompanhou nossa equipe por todo o Morro do Gambá na busca pelos depoimentos dos moradores que tiveram suas casas invadidas e reviradas pelos PMs.

Eu estava descendo pra ir no mercado e  minha prima me ligou dizendo que os policiais estavam na minha casa com um menino aqui do morro. Quando eu cheguei, eles já tinham saído daqui, mas deixaram tudo revirado. Minha prima ficou o tempo todo aqui com eles. Desde o momento em que eles entraram, tanto pra não deixar eles levarem nada ou destruirem a minha casa, como pra não deixar eles baterem no menino. Eu estou com raiva, mágoa, porque a polícia que a gente pensa que existe pra nos proteger, faz uma coisa dessas — conta uma das vítimas que não quis se identificar.

Eu cheguei aqui e as coisas da minha prima estavam todas no chão. Eles estavam com um menino detido. Eu vi eles apertando o pescoço do menino. Ele estava ajudando o pai a carregar material de construção e cismaram que o garoto era traficante e ele não era porque todo mundo aqui na comunidade conhece ele — relata a prima da vítima.

Eu entrei pra essa luta quando a PM matou meu filho Hanry

Antes de se tornar uma combativa líder comunitária, a vice-presidente do Morro do Gambá, Márcia Jacinto, de 48 anos, era uma humilde dona de casa que, como a maioria dos trabalhadores brasileiros, criava seu filho com muita dificuldade. Foi quando, em novembro de 2002, a vida do jovem Hanry Silva Gomes da Siqueira, na época com 16 anos, foi brutalmente tirada por policiais militares do mesmo batalhão que aterrorizou os moradores do complexo de favelas do Lins de Vasconcelos na manhã da última sexta-feira.

Eu entrei pra essa luta depois que mataram o meu filho Hanry. Eu lembro que, no dia, eles subiram por trás do morro, pela Rua Amalfi e executaram o meu filho lá em cima da favela. Ele estava voltando da casa de um amigo quando foi pego pelos PMs. Na época, como eles fizeram hoje, os policiais subiram de mochila. Isso porque, se eles vitimarem alguém, de dentro da mochila eles já tiram armas e drogas para plantarem junto com corpo da vítima. Independente de ser bandido ou não, essas pessoas, na maioria dos casos, são executadas. Quase nunca tem troca de tiros, como eles dizem. E meu filho foi só um número a mais nessa estatística. Foi enterrado como bandido — relata.

Márcia Jacinto perdeu seu filho. Contudo ganhou disposição de sobra para lutar por justiça para os assassinos a serviço do Estado que, todos os dias, executam jovens a sangue frio nas favelas do Rio de Janeiro. Hoje, além de diretora da associação do Morro do Gambá, ela é militante da Rede de Comunidades e Movimentos Contra a Violência e viaja o Rio e o Brasil prestando soliariedade às famílias de outras vítimas da polícia desse Estado em decomposição.

Depois da perda do meu filho, tenho a impressão de que começou uma outra vida pra mim. As pessoas agora, quando sofrem abuso, quando têm os seus direitos violados pela polícia, vêm a mim relatar o que houve. Porque sabem que, depois que assassinaram o meu filho, eu entrei pra essa luta pra não sair nunca mais. Quero impedir que esses agentes do Estado, assassinos, executem outros Hanrys — conta a líder comunitária.

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