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Policial do BOPE é acusado de estuprar moradora da Mangueira

Por Patrick Granja / A Nova Democracia

O dia ainda nascia, quando policiais do BOPE chegaram à favela da Mangueira a bordo do caveirão e de um helicóptero blindado, aterrorizando milhares de trabalhadores que deixavam suas casas em direção ao serviço. Na ocasião, escolas, creches e um posto de saúde tiveram que ser fechados e um homem morreu depois de ser baleado no pescoço pelos PMs.

Quando deixavam a favela, policiais do BOPE foram surpreendidos por cerca de cem moradores revoltados com o estupro de uma moça de 21 anos por um policial durante a operação. No protesto, pneus e ônibus foram queimados pela massa, furiosa com mais um crime praticado pela tropa fascista de Sérgio Cabral, ironicamente, na primeira operação policial na história da corporação comandada por uma mulher, a tenente-coronel Solange Helena do Nascimento.

Ao fim da tarde, a vítima compareceu à delegacia para registrar o boletim de ocorrência acompanhada de cerca de 50 moradores e do presidente da associação de moradores da Mangueira, Celso da Silva Perez. Em seguida, ela foi encaminhada pelos policiais para o Instituto Médico Legal para realização de exame de corpo de delito. Segundo a família da jovem, o legista apenas observou-a de longe e, mesmo sem fundamentos, negou o estupro no laudo pericial.

Não fizeram exame nas partes íntimas dela. Ela tirou a roupa e só olharam o corpo dela. Mais nada. Vamos pedir um exame particular para mostrar que ela foi estuprada — disse uma das irmãs da vítima. No dia seguinte, a jovem foi à comissão de direitos humanos da assembléia legislativa, onde relatou a deputados os detalhes do estupro.

Um deles falou: “mata logo”. Depois que os PMs revistaram a casa e não acharam nada, pediram 50 mil reais para me liberar. Eu disse que não tinha esse dinheiro. Um deles me perguntou se eu tinha celular. Eu disse que sim e que ia buscá-lo no meu quarto, que fica no segundo andar. O PM veio atrás de mim. Já no quarto, ele tirou minha roupa, me jogou contra o berço do meu filho e me violentou — contou a jovem em seu depoimento.

Segundo a família da vítima, além da imperícia do IML, o comando do BOPE também não está colaborando com as investigações, tendo se negado a fornecer o álbum com o retrato dos policiais que participaram da invasão à Mangueira. Cleuza da Silva Buzeti, de 43 anos, é camelô e moradora do morro da Mangueira. Ela conta que abusos como estupros, agressões, torturas e execuções sumárias, são práticas comuns da PM, especialmente do BOPE.

Isso já é normal aqui. Tem um monte de menina aqui no morro que já foi estuprada e teve até filho depois. Acontece que essa menina foi a primeira que teve coragem de ir na delegacia. Quando tem operação a criançada já corre pra casa porque todo mundo aqui sabe que qualquer um apanha e se eles sismarem com você, não vão ter nenhum problema em te matar. Sempre que estou trabalhando e fico sabendo de operação aqui, ligo pra casa de quem precisar para ter certeza de que meus filhos estão bem. E não é só aqui. Minha mãe mora no morro do Cavalão, em Niterói e lá é do mesmo jeito. A gente não aguenta mais essa vida — desabafa.

Já outro morador do morro da Mangueira, o operário da construção civil Horácio Cavalli, de 32 anos, vai além e acredita que protestos como o do dia 9 de setembro, são a única perspectiva de resposta das massas, à altura dos crimes praticados pelo Estado todos os dias nas favelas do Rio de Janeiro.

Tem que acabar esse negócio de ir pra justiça, porque a pessoa corre risco de vida e, no final, não dá em nada. Quanto garoto bom aqui já não foi enterrado como traficante? O povo tem que começar a fazer mais protestos. Fazer que nem lá de São Paulo. Só assim que a gente chama atenção. Se fosse a filha de um político ou de um rico, aquele PM já estava preso. Mas como é pobre, acontece isso aí. Ainda falam que é mulher de bandido. Mesmo que fosse. Agora pode estuprar mulher de bandido?— questionou.

E os intrincados planos do monopólio dos meios de comunicação também incluíram a criminalização da manifestação promovida pelos moradores, acusados de seguir ordens do tráfico varejista; seguida do menosprezo à denúncia da jovem estuprada, após o resultado negativo do infundamentado exame de corpo de delito, segundo denúncias da própria família. Nove dias depois, polícias civil e militar retornaram ao morro da Mangueira e assassinaram um jovem de 19 anos com três tiros. O mesmo aconteceu no início do mês de setembro nas favelas Águia de Ouro, Cachoeirinha, Fallet e Juramento, todas na zona norte da cidade, onde um total de onze homens morreram em operações policiais.

Crimes como o estupro e os assassinados descritos acima, tornaram-se práticas comuns do Estado em sua empreitada de criminalização e extermínio da pobreza, no Rio e em todo Brasil, com consecutivos ataques à favelas e a marginalização ferrenha das mobilizações populares nos bairros mais pobres do país.

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