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Polícia do Rio atira contra crianças e foge sem prestar socorro

Por Patrick Granja / A Nova Democracia

Somente em 2009, doze crianças já foram baleadas por policiais em invasões a bairros pobres da cidade. Além dos índices atemorizantes, na maioria dos casos a responsabilidade pelo socorro às vítimas fica por conta dos próprios moradores. No episódio mais recente, duas meninas foram atingidas simultaneamente enquanto brincavam numa tarde de sábado pelas vielas do Morro do Andaraí.

No primeiro dia do mês de agosto, durante operação policial no complexo de favelas do Andaraí, as meninas Herlen de Souza, 7 anos, e Mônica Silva da Conceição, 13 anos, foram baleadas por PMs e socorridas pelos próprios moradores. No Hospital do Andaraí, Mônica — atingida de raspão no braço esquerdo — foi medicada e liberada. Já a menina Herlen, baleada na cabeça, foi transferida para o Hospital de Saracuruna — uma das únicas unidades públicas que possui CTI infantil — e continua internada em estado grave.

Crimes como esses se tornaram comuns nos últimos meses e com a indiferença do monopólio dos meios de comunicação, rapidamente caem no esquecimento. Os criminosos também não têm com que se incomodar, já que o corporativismo das polícias e do Estado corrupto e falido, faz da vista grossa um hábito em direção aos seus obscuros fins de dominação.

Na segunda semana de 2009, na Vila Cruzeiro na Penha, uma menina de 12 anos foi baleada na cabeça por policiais do 16º BPM (Olaria) durante violenta invasão à favela. Ela foi socorrida pelos próprios moradores e internada na CTI do Hospital Getúlio Vargas em estado grave, vindo a falecer dias depois.

Ainda em janeiro, durante invasão de policiais do 14º BPM (Bangu) à favela do Fumacê na zona Oeste da cidade, o menino Carlos Ramos Vieira Júnior, de 5 anos, foi baleado de raspão na cabeça enquanto brincava no quintal de sua casa.

Em outro episódio, na semana que antecedeu o carnaval, policiais civis de diversas delegacias especializadas faziam operação no morro da Rocinha, zona Sul da cidade, quando Ágata Marques dos Santos, de 11 anos foi baleada por policiais com um tiro na cabeça. A menina estava na companhia do pai, o motorista Claudino dos Santos e ainda foi levada para o hospital Miguel Couto, no Leblon, mas não resistiu aos ferimentos.

Eu vi os policiais atirando e ainda saí com ela no colo, pedindo socorro a eles, que nada fizeram. Foram embora fingindo que não estavam me ouvindo — denuncia o pai.

Às 7h da manhã do dia 17 de março, enquanto trabalhadores do morro da Mineira saiam de casa em direção ao serviço e crianças preparavam-se para mais um dia de aula, cerca de 50 policiais do 1º BPM (Estácio) invadiram a comunidade dando início a um intenso tiroteio. Moradores denunciam que os policiais — que atiravam a esmo — balearam o menino Fabrício Francisco de 6 anos na cabeça e fugiram sem lhe prestar socorro. Em seguida, cerca de 200 moradores fecharam o viaduto 31 de março, nos acessos ao túnel Santa Bárbara, para protestar.

Na comunidade Chatuba de Mesquita, baixada fluminense, policiais do 20º BPM realizaram invasão na manhã de 24 de março e mais uma vez uma criança foi atingida — a quarta em menos de uma semana. Na companhia da mãe, o menino Guilherme dos Santos Severino, de 6 anos foi baleado na perna com um tiro de fuzil e levado para o Hospital Getúlio Vargas, na Penha. Momentos depois, moradores revoltados com mais uma ação criminosa da PM, bloquearam a rua Magno de Carvalho, que margeia a favela, e atearam fogo em dois ônibus.

No dia 8 de abril, uma criança de 9 anos não identificada foi baleada por policiais do 16º BPM (Olaria) durante invasão ao Morro da Fé, no Complexo do Alemão.

Na manhã de domingo, dia 19 de julho, PMs faziam ronda no entorno do Morro do Chaves, em Barros Filho, zona norte da cidade, quando suspeitaram do menino Willian Morreira da Silva, de 11 anos, que soltava pipa em um terreno baldio. Os policiais foram acusados por moradores de atirar contra o menino e fugir sem socorrê-lo. Willian cursava a 4ª série do ensino fundamental e havia feito aniversário dois dias antes de ser assassinado. Como de praxe, na maioria dos casos a secretaria de segurança pública, sem que nada fosse investigado, isentou os PMs de culpa, assim como se negou a enviar as armas usadas pelos policiais ao Instituto de Criminalística Carlos Éboli para que fossem periciadas. Todos esses episódios, assim como muitos outros crimes contra o povo cometidos todos os dias pela PM do Rio de Janeiro, evidenciam o alento do Estado em criminalizar a pobreza, criando os alicerces para o seu extermínio.

Moradores da Vila Aliança pedem a OAB que os proteja da PM

Na manhã do dia 20 de março, depois de uma invasão à favela Vila Aliança realizada por PMs do Grupamento de Ações Táticas do 14º BPM a menina Júlia Andrade de Carvalho, de 8 anos foi baleada e morta. Moradores acusam a polícia de entrar na favela atirando em um dos horários mais movimentados na comunidade. A menina Júlia atravessou a linha de tiro dos policiais e foi atingida na barriga.

Mais tarde, policiais do 14º BPM não satisfeitos retornaram à Vila Aliança e a outra favela próxima, a Vila Vintém em Padre Miguel. Eles mantiveram os bairros ocupados por toda tarde. Foram sete horas de tiroteio com um total de 8 moradores feridos, entre eles outra criança. Dessa vez um menino de dez anos. Todas as vítimas foram encaminhadas para o Hospital Estadual Albert Schweitzer e sobreviveram aos ferimentos.

No dia 29 de abril pela manhã, policiais do 14º BPM faziam outra operação na favela Vila Aliança quando atingiram a menina Yasmim Kelly Barbosa da Silva de três anos com um tiro de fuzil nas costas. A morte da menina foi comunicada momentos depois pela assessoria de imprensa da secretaria de segurança pública, junto com um comunicado expedido pelo coronel Pedro Paulo da Silva, comandante do Batalhão, onde ele, mesmo sem provas, defendia seus policiais e acusava traficantes de terem efetuado o disparo.

Ele colocou a mão na cabeça e percebeu o que tinha feito. Quando vi que ela foi atingida, peguei ela no colo e gritei: vocês são uns assassino! O autor do disparo estava ao lado de um policial conhecido como Fumaça, que parecia comandar a equipe porque retirou na hora a arma da mão do policial que atirou. Eles quiseram abafar a morte dela e fingiram que estavam realizando um trabalho de remoção de barreiras na rua — disse a avó da menina, Rosângela da Silva, de 41 anos.

Depois de um apelo feito por moradores, a Ordem dos Advogados do Brasil decidiu criar um posto avançado na Vila Aliança para auxiliar as famílias das vítimas na investigação dos assassinatos.

Eu espero que a polícia entre na comunidade para cumprir seu papel, mas pare de nos tratar como lixo. Queremos quebrar esse muro de impunidade — afirmou Wagner Alves de Carvalho, pai da menina Júlia, morta em março pela polícia.

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