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No Rio, saúde do povo permanece refém das mentiras e do abando

Por Patrick Granja / A Nova Democracia

No mês de junho cerca de 1,5 milhão de doses do larvicida cubano BACTIVEC, contra a dengue, tiveram o prazo de validade vencido e terão que ir para o lixo. Antes do vencimento, quando perguntado sobre o problema, o Secretário de Saúde Sérgio Cortês justificou-se afirmando que os larvicidas eram tóxicos e por isso haviam sido substituídos pelo americano Vectobac (WDG), mas pesquisas mostram que, além de eficiente, o BACTIVEC não é tóxico. Coincidência ou não, após a sua substituição, o número de casos começou a subir, atingindo índices jamais vistos.

Em seu pior momento desde o surgimento da doença, a dengue continua fazendo vitimas fatais todos os dias no Rio de Janeiro, principalmente entre os mais pobres, que sem outra opção, enfrentam filas enormes para tentar um atendimento na rede pública, entregue à inoperância do estado, corrupto e falido. Dados da Secretaria Municipal de Saúde mostram que 42% das vítimas da doença são crianças até 15 anos.

Ao mesmo passo, um milhão de frascos do larvicida cubanos BACTIVEC — utilizados no combate às larvas do mosquito Aedes Aegypti — no valor de R$ 5,150 milhões tiveram o prazo de validade expirado e terão que ser jogados no lixo. No início de maio, já haviam sido dispensados 500 mil frascos, no valor de R$ 2,575 milhões.

De acordo com o Ministério da Saúde e o Secretário estadual de Saúde e Defesa Civil do Rio, Sérgio Cortês, “Aquele produto é altamente tóxico para quem usa. Então, felizmente, está vencendo”. Porém, a opinião de especialistas no assunto e o resultado de laudos técnicos da FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz) e da OMS (Organização Mundial de Saúde), mostram que o parecer do Ministério da Saúde é falso e que o larvicida, além de não-tóxico, é altamente eficiente no combate a dengue.

Condições adequadas

O produto biológico BACTIVEC, usado em 40 países e fabricado pelo Laboratório cubano LABIOFAM SAé um biolarvicida desenvolvido na década de 80, por pesquisadores cubanos do IPK — Instituto de Medicina Tropical Pedro Kouri — centro de referencia da Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo muito seguro, biodegradável e efetivo no controle das larvas de mosquitos de diferentes espécies.

Em carta a AND, a diretora do Labiofam no Brasil, Dra. Mavy Hernández Rodriguez, disse que a justificativa dada pelo secretário Sérgio Cortês para a suspensão do uso do BACTIVEC é falsa, pois o biolarvicida cubano é um produto biológico com ingredientes inertes e naturais, além de ter todos os testes toxicológicos exigidos pela OMS para ser usado em água potável.

“No Brasil o larvicida foi testado em centros de referencia para o controle vetorial como SUCEN (São Paulo), FIOCRUZ, testes de campo em Natal, Foz de Iguaçu e Nova Iguaçu além de projetos pilotos em Minas Gerais, Roraima, Amazonas e Rio de Janeiro. Em todos eles, foi demonstrada a efetividade do BACTIVEC como biolarvicida sendo uma ferramenta a mais dentro do controle integrado para o combate ao Aedes Aegypti e epidemias de dengue”

Na carta a doutora também conta que os resultados desses testes tiveram diagnósticos completamente diferentes dos que foram feitos pela Secretaria Municipal de Saúde e pelo Ministério da Saúde, para respaldar a suspensão no uso do larvicida cubano.

“Os resultados obtidos nesses testes e projetos contradizem o exposto pelo Secretario Adjunto de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde – Sr. Fabiano Pimenta — com respeito ao poder residual do produto, sendo demonstrado que o produto pode ser efetivo até 58 dias (Teste Realizado na FIOCRUZ), dependendo das condições do meio, fator comum para qualquer produto que seja empregado como biolarvicida”

Na carta, um cronograma contendo o retrospecto dos anos em que o BACTIVEC foi usado no Rio, revela que em todo o período, nenhum incidente de intoxicação de seus usuários foi registrado.

“No Estado do Rio, este produto foi usado durante três anos, sendo aplicado pelos agentes de saúde especializados no tratamento, educando e ensinando aos moradores para sua continuidade garantindo uma proteção estável e contínua no tratamento, além de envolver a população no controle do Aedes Aegypti. Durante todo este tempo não existiu nenhum incidente de intoxicação, alergia nem casos de Dengue nas áreas trabalhadas. Inclusive temos cópias de ofícios de Secretários Municipais de Saúde, solicitando a Secretaria Estadual de Saúde, para que continuasse a aplicação do produto no ano de 2007”.

De acordo com o antigo coordenador do projeto BACTIVEC, o microbiologista Uranis Gomes De Assumpção — conseguimos reduzir os índices de infestação do Aedes aegypti para menos de 1%, inclusive em Jacarepaguá— conta Uranis.

Artigos e matérias em revistas de medicina também colocam em dúvida a substituição do larvicida cubano. Uma delas, a Revista Cubana de Medicina Tropical (2004), mostra que depois que o BACTIVEC passou a ser usado no Rio de Janeiro em 2002, os focos da doença foram reduzidos significativamente e o BACTIVEC se mostrou muito eficaz. Os melhores índices foram registrados em Botafogo onde os casos foram reduzidos em menos de 1%. Em bairros de Nova Iguaçu, onde havia uma epidemia em 2002, os casos tiveram uma redução de até 81%.

Substituição suspeita

Hoje, um outro larvicida está sendo usado pela Prefeitura, o americano Vectobac (WDG). Trata-se de um pó branco que só pode ser aplicado pelos agentes, diferente do BACTIVEC que, por possuir um manuseamento mais simples, pode ser aplicado pela própria população no combate aos focos do Aedes Aegipty.

Regiões onde o BACTIVEC não foi utilizado, como Sergipe, Rio Grande do Norte, Bahia, Ceará e Mato Grosso, além do Rio de Janeiro, onde o larvicida cubano foi substituído pelo americano, tiveram um vertiginoso crescimento no número de casos da doença. Dados da Secretaria Municipal de Saúde do Rio divulgados no final de maio contabilizam quase 76 mil casos e 106 óbitos em 2008. No estado do Rio, o número de infecções chega a 134 mil.

Mesmo com tantos argumentos contrários, as gerencias insistem em boicotar a utilização do BACTIVEC, forjando laudos para favorecer corporações imperialistas e jogando o dinheiro público no lixo, depois que quase 8 milhões de reais em frascos do BACTIVEC tiveram o prazo de validade vencido. A redução nos gastos e os resultados “eficientes” previstos pelo Ministério da Saúde acabaram terminando no maior surto de dengue já visto no Brasil.

Como disse a Dra. Mavy Hernández: “Será válida a redução dos custos no programa de controle de dengue, pela compra do larvicida usado pelo Ministério de Saúde segundo o Sr. Fabiano Pimenta, comparado com o custo de uma vida humana?”.

A experiência cubana

O conhecimento cubano no combate a dengue não é de agora. Em 1981 uma epidemia de dengue hemorrágica assustou a população cubana deixando um total de 158 pessoas mortas em um período de apenas dois meses. Na ocasião registraram-se 344.203 casos da doença, sendo 71,3% em adultos e o restante em crianças. Durante o pico da epidemia foram registrados 11.271 casos em um único dia.

A prioridade do governo cubano para combater a epidemia foi a conscientização da população e a reestruturação completa da distribuição de água, aliados ao alto nível de capacitação dos profissionais de medicina cubanos na área de pesquisas. Assim, foi necessário menos que um ano para que o surto fosse completamente neutralizado. Isso em 1981, quando o aparato tecnológico e biomedicinal para o controle de epidemias tinham severas restrições se comparados aos dias de hoje.

Há muitos anos Cuba vem prestando ajuda humanitária com seus serviços médicos e profissionais de forma desinteressada em numerosos países do mundo no atendimento primário. Conta com uma Escola Latino-Americana de Medicina para formar médicos que ajudem a melhorar a qualidade de vida dos povos incluindo o Brasil. É referencia nas Américas e em todo o planeta, especificamente nas áreas da Biomedicina, Controle Vetorial e Biotecnologia, superando todos os padrões do primeiro mundo. Em Cuba se incentivam a investigação e produção de medicamentos, produtos biológicos e naturais os quais são muito efetivos, biodegradáveis e não afetam diretamente ao meio ambiente, todos eles com um alto controle de qualidade em cada um dos processos. Como um país, com essas características, exportaria um produto tóxico?

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Uma resposta

  1. Parabens Pela Coragem e qualidade das Materia neste,Sergio Cabral Junto com tudos politicos estão assassinando o povo Trabalhador,Mas o povo Unido já Mais Será Vencido, Não Vota Brasil!!

    11 de agosto de 2008 às 23:13

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