Mais cenas e relatos do covarde ataque das tropas do Estado à favela Pinheirinho, em SP
Por Patrick Granja / A Nova Democracia
As imagens contidas nesse video mostram cenas e relatos dos momentos de terror vividos pelos moradores da favela Pinheirinho no último dia 22 de janeiro. Na ocasião, 10 mil famílias foram expulsas pelo gerenciamento Alckmim de um terreno no município de São José dos Campos, interor de São Paulo. Nos dias seguintes, nossa reportagem esteve no local e conversou com várias vítimas da operação de guerra mobilizada pelas forças de repressão do velho Estado contra as famílias que viviam no local. Muitas pessoas que entrevistamos apresentavam ferimentos pelo corpo, segundo elas, causados por sessões de espancamento comandadas pela ROTA, conhecida pelas atrocidades que comete contra o povo nas favelas e bairros pobres de São Paulo.
Quando nossa reportagem esteve no abrigo montado na Igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro — ao lado do Pinheirinho —, muitos desabrigados relataram as atrocidades cometidas pela PM durante o despejo. Revoltada, uma moradora abrigada na igreja com sua família denunciou algumas da mentiras veiculadas pelo monopólio dos meios de comunicação em conluiu com os gerenciamentos de turno.
Polícia expulsa 450 famílias de latifúndio no Distrito Federal
Por Patrick Granja / A Nova Democracia
No último dia 28 de janeiro, o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), autorizou o despejo de 900 pessoas que viviam em 450 barracos no latifúndio Fazenda Sálvia, às margens da rodovia DF-330 entre Sobradinho e Paranoá. O terreno de 306 hectáres pertence à Secretaria de Patrimônio da União (SPU), do Ministério do Planejamento e Gestão e estava completamente abandonado quando foi ocupado pelas famílias.
Às 9:50h da manhã de sábado, 450 policiais civis, militares e federais chegaram ao local para retirar os camponeses. Uma mulher grávida passou mal e teve que ser levada para o hospital. 29 trabalhadores foram presos acusados de desacato à autoridade e invasão com intenção de ocupar terras da União.
— Não quero nada de ninguém. Queria só um pedaço de chão para plantar, mas, como não deu certo, vou esperar uma oportunidade. O governo tinha de ajudar quem precisa. Essa terra está parada — disse o agricultor José Pereira Gonçalves, de 48 anos, ao portal do jornal Correio Braziliense.
Às vésperas de mais uma eleição burguesa, escancaram-se as contradições dos partidos oportunista eleitoreiros que se lançam na disputa por uma fatia da pizza. Curiosamente, o governador Agnelo Queiroz, mandante desse despejo, por exemplo, compõe as fileiras do mesmo PT, que gastou baldes de saliva criticando a violenta expulsão dos moradores do Pinheirinho, em São José dos Campos, SP, governado elo PSDB. Verdade seja dita: este ano, sujos e mal lavados, ainda falarão muito mal uns dos outros.
Pinheirinho: Moradores denunciam torturas e desaparecimentos após violento despejo
Por Patrick Granja / A Nova Democracia
Depois do violento despejo da favela Pinheirinho, em São José dos Campos, São Paulo, a reportagem de AND visitou alguns dos abrigos onde milhares de ex-moradores encontram-se alojados. Na igreja Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, milhares de desabrigados compartilham um pequenos espaço onde comida, água e banheiro são escassos. Dentre as pessoas que estavam no local, muitas procuravam notícias de parentes desaparecidos durante o despejo. Outras denunciavam as sessões de tortura comadadas pela ROTA (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), a mais letal tropa da PM de São Paulo. Muito abatido e com dificuldades para andar, um jovem trabalhador conversou com nossa reportagem e disse ter sido espanacado por policiais.
Nossa reportagem também conversou com a mãe do jovem David Furtado, baleado nas costas por homens da Guarda Civil Metropolitana. Dona Rejane disse que o estado de saúde de David ainda é muito delicado e que irá lutar por justiça. Já o aposentado Antônio dos Santos disse que está há dias procurando pela irmã e pelos sobrinhos, também desaparecidos. Além dele, conversamos com a ex-esposa do aposentado Ivo Teles dos Santos, de 72 anos, que também está desaparecido. Segundo vizinhos, o senhor foi visto pela última vez durante o despejo do Pinheirinho com ferimentos a bala nas pernas e queimaduras por todo o corpo.
Pinheirinho resiste bravamente a criminoso despejo em São José dos Campos, SP
Por Patrick Granja / A Nova Democracia
Há cerca de duas semanas, aproximadamente 10 mil trabalhadores pobres que ocupam desde 2004 um terreno na cidade de São José dos Campos, São Paulo, preparam-se para resistir à ação de reintegração de posse anunciada pelo gerenciamento Alckmin. O terreno pertence à massa falida da empresa Selecta S/A, que deve cerca de 10 milhões à prefeitura de São José dos Campos. Durante essas duas semanas, moradores da ocupação, conhecida como Pinheirinho, ergueram barricadas, improvisaram armas e escudos e prometeram enfrentar a polícia caso o despejo forçado fosse, de fato, levado a cabo.
No início da manhã de hoje, dia 22 de janeiro, mais de 2 mil policiais e guardas civis metropolitanos chegaram ao local com um aparato de guerra. O prefeito de São José dos Campos, Eduardo Cury, chegou a dizer à TV Vanguarda que a reintegração de posse seria pacífica. No entanto, inúmeras videos foram postados por moradores na internet denunciando os abusos cometidos pela polícia e pela GCM contra os trabalhadores.
Há vários feridos e pessoas detidas. Informações dos moradores da ocupação falam em mortos e pessoas desaparecidas. A Guarda Municipal usou balas letais contra a população. O advogado do movimento, Antonio Donizete Ferreira, o Toninho, e o presidente do Sindicato dos Condutores, José Carlos, foram feridos com tiros de bala de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Até crianças feridas foram atendidas em Unidades de Pronto Atendimento (UPA). Os fornecimentos de água, energia elétrica e telefone foram cortados na região.
A população de bairros vizinhos está revoltada com a ação da polícia realizada durante todo o dia. Nos bairros Residencial União e Campo dos Alemães, a população se rebelou atirando pedras contra os soldados. Tentaram derrubar as tendas armadas para colocar os moradores do Pinheirinho. Chegaram a derrubar as grades do Centro Poliesportivo do Campo dos Alemães, local para onde estão sendo levados os moradores para fazer a triagem. (Informações da Rede Contra a Violência)
Os moradores do Pinheirinho resistiram bravamente, como disseram que fariam. Pedras e paus foram usados pelos manifestantes contra a tropa de choque, que respondeu com tiros de bala de borracha e bombas de gás lacrimogêneo. Segundo informações dos moradores do Pinheirinho, um homem teria ficado gravemente ferido depois de ser atingido por um tiro de munição real disparado pela GCM. Inúmeros carros foram incendiados pela massa em fúria. Entre eles estava a Unidade Móvel de Jornalismo da TV Vanguarda, afiliada da TV Globo. A resitência foi uma importante lição de bravura aos trabalhadores em luta por todo o Brasil.
2011: Greves e despejos no rastro da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil
Por Patrick Granja / Especial para o jornal A Nova Democracia, edição 85
Ano passado, a notícia da escolha do Brasil como país sede das olimpíadas de 2016 foi recebida com euforia por milhares de pessoas na praia de Copacabana. Já em 2011, passada a ilusão, começa a ficar claro para as massas empobrecidas a que serve o circo dos mega-eventos. Construtoras milionárias tornaram-se bilionárias embolsando dinheiro público para reformar e construir estádios e executar obras de grande porte; exigências da Fifa e do Comitê Olimpíco Internacional. Com isso, favelas e bairros pobres inteiros foram despejados das áreas nobres do país para regiões remotas. Tudo minuciosamente maquiado pelo monopólio dos meios de comunicação — grande arrendatário dos lucros desse circo — e a propaganda institucional, que insiste em dizer: ‘a responsabilidade é de todos nós’.
Apesar de toda a opressão — com remoções de favelas, despejos forçados de ocupações e repressão violenta aos movimentos sociais —, o ano de 2011 também foi um período de luta ferrenha para os operários da construção civil em todo o país. Responsáveis por erguer toda a estrutura do circo dos megaeventos, operários cruzaram os braços em vários estados, cansados do arrocho imposto pelos consórcios que administram as obras.
Greves Brasil afora
No Rio de Janeiro, operários que trabalham na reforma do Maracanã cruzaram os braços em duas ocasiões. Na primeira vez, a paralisação começou depois que a explosão de um tonél de combustível feriu um operário. Na segunda ocasião, trabalhadores cruzaram os braços depois que o consórcio serviu comida estragada aos operários do turno da noite. Dessa vez, a greve se estendeu por três semanas. Depois de uma longa queda de braço entre os trabalhadores e o bilonário consórcio — que reúne as empresas Odebrecht, Delta e Andrade Gutierrez — o Tribunal Regional do Trabalho, TRT, decidiu a favor dos patrões e decretou a greve ilegal, mostrando a quem serve a justiça desse Estado apodrecido. As únicas conquistas dos operários em sua jornada de lutas foram o plano de saúde individual e um aumento de 100 para 180 reais no vale alimentação, que continua defasado se comparado ao valor pago aos operários de outros estados.
No estádio Mineirão, em Belo Horizonte, operários já cruzaram os braços em três ocasiões em 2011, exigindo, entre outras questões, equiparação salarial com os trabalhadores da construção de São Paulo e extensão do plano de saúde aos familiares. A última paralisação aconteceu no dia 16 de setembro, quando Dilma Roussef esteve em Belo Horizonte para participar de uma festa marcando o início da contagem regressiva de mil dias para a copa do mundo. Professores em greve, na ocasião, se uniram aos operários para repudiar a presença da gerente de turno.
Já em Salvador, operários que trabalham nas obras de reforma do estádio Fonte Nova tiveram conquistas significativas em sua greve nos meses de agosto e setembro. A principal delas foi um abono de 180 reais, pago em quatro parcelas.
Em Brasília, 2,3 mil trabalhadores das obras do estádio Mané Garrincha também cruzaram os braços em outubro exigindo aumento salarial, pagamento imediato de 20 horas-prêmio prometidas pelo consórcio três meses antes da greve, aumento do percentual pago sobre horas extras e bonificação por produtividade. A greve acabou depois de dez dias e o consórcio que administra a obra — orçada em 745 milhões de reais — aceitou pagar aos trabalhadores apenas um abono equivalente a 30% do salário e auxílio-alimentação.
Em Recife, 1,6 mil operários da obra da Arena Pernambuco cruzaram os braços em novembro alegando maus tratos, assédio moral e contestando a demissão de dois membros da Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), um carpinteiro e um ajudante. No dia 3 de novembro, PMs impediram a realização de uma assembléia geral dos trabalhadores. Os políciais exigiram a retirada do carro de som do local, mas os operários não aceitaram e reagiram. PMs atacaram os trabalhadores a golpes de cacetete e um operário foi preso. A greve acabou depois que o TRT decretou o movimento ilegal.
No Rio Grande do Sul, operários que trabalham na construção da Arena do Grêmio, em Porto Alegre, se revoltaram no início de outubro depois que um operário foi atropelado no percurso entre o canteiro de obras e o alojamento e morreu no local. Os trabalhadores bloquearam a BR-290 durante o fim da tarde e a noite e entraram em confronto com a polícia.
Remoções forçadas
Além do arrocho aos operários que trabalham nas obras, outro aspecto marcante nos preparativos para os megaeventos são os despejos e remoções forçadas que antecedem essas grandes construções. A reurbanização das grandes cidades do Brasil e seu impacto avassalador na vida do povo pobre têm sido alvo de críticas de urbanistas por todo o país.
— Estamos frente a um novo pacto territorial, redefinido por antigas lideranças paroquiais, sustentadas por frações do capital imobiliário e financeiro, e amparadas pela burocracia do Estado — disse Orlando dos Santos Junior, mestre e doutor em Planejamento Urbano da UFRJ.
— Existe um controle do espaço público para atender aos patrocinadores, que querem o espaço das cidades, e não apenas do estádio. Qual poderia ser o legado humano desses eventos? — pergunta a mestre em arquitetura e urbanismo da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Nelma Oliveira.
Mesmo com todas as críticas, para os arrendatários desse circo, as obras não podem parar e as remoções seguem acontecendo por todo o país. No Rio de Janeiro, as obras de construção de cerca de 100 quilômetros de vias — os corredores expressos de ônibus, mais conhecidos como BRTs — a um custo de R$ 4,2 bilhões, prevêem a remoção de, pelo menos, 5 mil famílias em 13 bairros. Segundo o próprio secretaria municipal de habitação, Jorge Bittar, do PT, de janeiro de 2009 a agosto de 2011, aproximadamente 13 mil famílias foram removidas de seus locais de origem no Rio de Janeiro.
— Massacrar uma comunidade por conta de uns jogos de 27 dias eu acho uma injustiça muito grande — protesta Altair Guimarães, presidente da associação de moradores da Vila Autódromo, uma das favelas ameçadas de remoção no Rio.
O panôrama geral das remoções em todo o Brasil no ano de 2011 não foi diferente do Rio de Janeiro.
Segundo dados da relatoria das nações unidas pelo direito à moradia adequada, em Belo Horizonte, Minas Gerais, 4,5 mil famílias estão sendo removidas. As principais favelas afetadas são: Dandara (900 famílias), Camilo Torres (140 famílias), Irmã Dorothy (130 famílias), Torres Gêmeas (180 famílias), e o entorno do Anel Rodoviário (3 mil famílias).
Em Fortaleza, Ceará, mais de 3,5 mil famílias estão sendo removidas em função das obras de ampliação da Via Expressa e da construção do Ramal Parangaba/Mucuripe do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos).
Em Curitiba, Paraná, 250 famílias estão sendo removidas para a ampliação do Aeroporto Internacional Afonso Pena. As favelas afetadas são Jardim Suissa, Vila Quisissana, Nova Costeira, Costeirinha, Vila Fontes, Rio Pequeno e Bairro Jurema.
No município de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte, 345 famílias estão ameaçadas de remoção para a construção do novo aeroporto internacional. A maioria das famílias vivem na comunidade Padre João Maria.
Em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, 4,5 mil famílias estão ameaçadas de remoção em decorrência das obras de ampliação do Aeroporto Salgado Filho e de duplicação da Avenida Tronco. No total, organizações de defesa dos direitos do povo estimam que 10 mil famílias podem ser removidas nos município de Porto Alegre e Canoas até 2014.
Em São Paulo, estima-se que serão desalojadas mais de 50 mil famílias até os mega-eventos. Cerca de 24 favelas estão ameaçadas até agora. As remoções fazem parte do cronograma de obras da Operação Urbana Água Espraiada — que já removeu 10 mil famílias —, Operação Urbana Água Branca, revitalização da área da Luz, conhecida como Projeto Nova Luz, e a reurbanização do Parque Dom Pedro e da região do Pátio Pari.
Vila Autódromo resiste aos tratores da prefeitura
A favela Vila Autódromo é um tradicional polo de luta contra as remoções de bairros pobres no Rio de Janeiro. Isso porquê, desde 2005, a prefeitura do Rio, por diferentes motivos, planeja, sem sucesso, remover os moradores do local. Localizada na zona oeste do Rio, a favela tem esse nome porque é vizinha do autódromo de Jacarepaguá e, além disso, está posicionada em meio a um complexo de arenas que abrigaram os jogos panamericanos em 2007. Em 2011, mais uma vez, o gerente estadual Eduardo Paes, mostrou suas garras à Vila Autódromo e disse que, dessa vez, os moradores vão ser removidos do local, custe o que custar. A remoção teria o objetivo de abrir espaço para a construção de um parque olímpico para as olimpíadas de 2016, mas os moradores, muito bem organizados, dizem que vão resistir.
O projeto do parque olímpico será feito através de uma parceiria público-privado e, em seu edital, prevê que 75% dos 1,2 milhão de metros quadrados sejam entregues a iniciativa privada logo após os Jogos Olímpicos, para a construção de condomínios residenciais, comerciais e hotéis.
Aos moradores, em troca de suas moradias, a prefeitura oferece apartamentos do programa Minha Casa, Minha Vida a quilômetros de distância da Vila Autódromo, ou o famigerado aluguel social. Ambas as propostas já foram recusadas pelos moradores que prometem resistir até que a última casa seja demolida.
— Nós adoramos viver aqui. A gente sai pra ir ali na tendinha, deixa a casa aberta e, quando a gente volta, está tudo do mesmo jeito. Esses lugares pra onde eles querem levar a gente, muito mau, a gente vai poder ficar no portão. Aqui é bom demais pra morar. Eu moro aqui desde 1987 e tenho o título de posse que o Brizola nos deu. Todo ano vem o IPTU pra pagar. Meus netos cresceram aqui, brinacando na rua, entram e saem da favela e nunca aconteceu nada. Aqui não tem tráfico, milícia, nada disso. É uma paz só. Nós aqui somos uma família. Um ajuda o outro. Nós moradores somos muito unidos, mas infelizmente a prefeitura está fazendo isso conosco — lamenta a moradora Osmarina Fernandes.
Logo após o anúncio da remoção, o monopólio dos meios de comunicação iniciou seus trabalhos visando criminalizar os moradores da Vila Autódromo e dar razão à prefeitura em sua antiga empreitada para retirar a favela do local. No dia 4 de outubro, o jornal O Globo publicou uma matéria acusando moradores de roubar as pessoas que esperavam na fila para adentrar a cidade do rock — vizinha à Vila Autódromo —, durante a realização do evento Rock in Rio. Dois dias depois, após o final do evento, o mesmo jornal divulgou uma reportagem de página inteira mostrando maquetes do parque olímpico e insinuando que a resistência dos moradores da Vila Autódromo era um obstáculo à realização das olimpíadas no Brasil.
Foto de Patrick Granja, repórter de AND, é selecionada para exposição em Londres
No último dia 3 de setembro, começou em Londres uma exposição fotográfica promovida pela marca de fightwear LUTA, exibindo uma seleção de 12 imagens do cotidiano de luta de moradores de favelas e bairros pobres brasileiros. O concurso para escolha das fotos foi organizado pelo portal VivaFavela e teve centenas de fotos candidatas. Entre as imagens escolhidas, está uma foto do repórter de A Nova Democracia, Patrick Granja, tirada na favela Vila Taboinha, no Rio de Janeiro, no dia em que agentes de repressão do velho Estado foram ao local levar a cabo uma ação de despejo contra os moradores, que resistiram. O protesto, que aconteceu em novembro de 2010, teve início pela manhã e bloqueou a única entrada da favela. Mesmo quando a tropa de choque da PM se aproximou da massa, manifestantes não arredaram pé e foram atacados com bombas de gás lacrimogêneo e tiros de bala de borracha. Contudo, o ataque não foi suficiente para expulsar os moradores. Depois de muita LUTA, os trabalhadores da Vila Taboinha garantiram a posse de suas terras e, até hoje, vivem no local. Para quem vive na Inglaterra e quer prestigiar a exposição, aqui vai o endereço.
LUTA
Centro de Unidade de 15/16 Thomas Neal
35 St Earlham
WC2H 9LD
Links de divulgação da exposição:
http://www.sevendials.co.uk/latest/the-fighter-within-photography-exhibition-opens-at-luta
http://cultureodyssey.com/headsup/events/story.php?t=the-fighter-within-photography-exhibition
Comerciantes do Complexo do Alemão na mira do choque de ordem
Por Patrick Granja / A Nova Democracia
Composto por 13 favelas, o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, abriga milhares de comerciantes que, sem outras opções, trabalham como autônomos para garantir a sobrevivência de suas famílias. Na favela Nova Brasília, centenas deles estão tendo suas vidas arruinadas por conta da ação do choque de ordem do prefeito Eduardo Paes. Há meses, os comerciantes da Travessa Guadalajara e da Avenida Itaóca vivem apreensivos com as ameaças de demolição. Segundo eles, uma barbearia já teria sido levada abaixo por agentes do choque de ordem. Na tarde de ontem, nossa reportagem foi ao local ouvir os relatos das possíveis vítimas dessa iminente ação da prefeitura do Rio.
Dona Ivanilda é uma das comerciantes ameaçadas de remoção. Ela diz que não tem família e mora de favor com a irmã e, por isso, não terá como sobreviver sem o seu comércio.
Além dos comerciantes, camelôs que trabalham na avenida Itaóca também relataram os ataques do choque de ordem que sofrem constantemente. De acordo com um dos vendedores, na semana passada, guardas municipais teriam roubado a mercadoria de quem trabalhava no local.
Protesto repudia os crimes do Estado no rastro da Copa e das Olimpíadas no Brasil
Por Patrick Granja / A Nova Democracia
No dia 29 de julho, durante o sorteio das eliminatórias da Copa do Mundo, no Rio de Janeiro, uma manifestação organizada pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas percorreu as ruas da cidade até a Marina da Glória, onde acontecia o evento. Participaram do ato vítimas das criminosas remoções de favelas e bairros pobres levadas a cabo pela prefeitura, sem-tetos, além de professores da rede estadual em greve e vários outros setores dos movimentos sociais. Indignados com os impactos avassaladores dos mega-eventos nas vidas do povo, os manifestantes percorreram as ruas da Zona Sul da cidade até o local do sorteio, que custou nada mais nada menos que 30 milhões de reais aos cofres públicos.
A Copa e as Olimpíadas no Brasil estão chegando, e quanto mais o tempo passa, mais a vida do povo pobre que vive nas regiões nobres da cidade é arruinada pelo Estado. Os gastos com os mega-eventos são bilionários, enquanto professores, bombeiros e outros funcionários públicos passam meses em greve tentando um complemento em seus salários miseráveis. Somente a reforma do Maracanã custará aos cofres do Estado 956,8 milhões de reais. Ao passo em que o piso salarial dos professores da rede estadual não ultrapassa a faixa de 800 reais.
Esse foi o foco do ato promovido por vários setores dos movimentos sociais no dia do sorteio dos grupos das eliminatórias para a Copa de 2014. Cada organização ou líder comunitário tinha o seu justo motivo para questionar os mega-eventos.
— O dinheiro é do povo e o povo é quem tem que decidir o que tem que ser feito com ele. Eles não podem fazer o que querem com o nosso dinheiro. O povo não é bobo. Queremos resposta — disse a presidente da associação de moradores da favela Estradinha 1014, Maria de Fátima. Desde o ano passado, a Estradinha, na Zona Sul do Rio, é um dos principais alvos dos tratores da prefeitura, que já removeu 230 das cerca de 300 famílias que viviam no local.
— Eu não sabia que pra gente ter os jogos, as Olimpíadas, a Copa aqui no Brasil precisaria remover as comunidades, limpar a faixada do Rio de Janeiro. Afinal, essa Copa é pra mim ou é para os gringos? Esse Rio de Janeiro grande e bonito foi construído pelos pobres das encostas. Se as encostas estão ocupadas pelas favelas é porque o pobre veio pra cá construir as casas dos ricos. Agora que as casas dos ricos já estão construídas, os pobres não podem mais viver nas encostas? — pergunta a Irmã Fátima.
— Pelo visto vai ficar meio difícil para o pobre assistir futebol. Vai ser muito caro. Vai ter que assistir em casa tomando a sua cervejinha e fazendo o seu churrasquinho, porque me parece que vai ficar ruim pro pobre assistir a Copa — disse a líder comunitária Zélia Carneiro, moradora do Arroio Pavuna, na Zona Oeste do Rio, outra favela ameaçada de remoção pela prefeitura.
Quando chegaram ao local do sorteio, os cerca de mil manifestantes bloquearam a Avenida Infante Don Henrique, mesmo com o forte aparato policial mobilizado para reprimir possíveis protestos.
Com o caminho em direção à Marina da Glória bloqueado pela polícia, os setores mais combativos do movimento permaneceram sentados na rua até a chegada de alguma autoridade para escutá-los. Demonstrando indiferença, um representante do Ministério dos Esportes foi ao local e ouviu as reinvindicações dos grupos que estavam protestando.
Com isso, o ato chegou ao fim, mas não a luta de milhares de pessoas que estão, todos os dias, tendo suas vidas arruinadas em prol da Copa e das Olimpíadas no Brasil
— Esse ato de hoje serviu pra dar visibilidade para as favelas e ocupações urbanas do Rio, onde têm acontecido despejos forçados. Nas comunidades eles expulsam os trabalhadores e ainda destroem as suas moradias. Sem contar que 30 milhões é muito dinheiro para gastar com esse evento de hoje. Tem muito dinheiro sendo gasto enquanto podiam estar investindo em habitação para o povo, reajustando o salário dos professores. O objetivo dos trabalhadores aqui é encampar uma luta mais pra frente, uma luta mais agressiva, uma greve geral e parar o Rio de Janeiro — disse o representante da Frente Internacionalista dos Sem-teto, Renato Dória.
Comerciantes do Morro da Mangueira são atacados pelos tratores da prefeitura
Por Patrick Granja / A Nova Democracia
No rumo da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Rio de Janeiro, os gerenciamentos de turno seguem atropelando o direito a moradia de milhares de trabalhadores pobres, expulsando-os de suas casas sem dar-lhes uma alternativa habitacional digna. Dessa vez o morro da Mangueira foi o alvo dos tratores do prefeito Eduardo Paes. A ação, que destruiu tradicionais estabelecimentos comerciais da favela, foi levada a cabo no mesmo dia em que o BOPE — a mais violenta tropa da PM do Rio — se instalou no local, abrindo caminho para mais uma UPP — Unidade de Polícia “Pacificadora”. A reportagem de AND foi ao local e conversou com algumas das vítimas dessa nova ação do gerenciamento municipal contra o povo pobre no Rio de Janeiro.
No início do mês de julho, a reportagem de AND foi ao Morro da Mangueira conversar com um grupo de mais de 50 comerciantes que tiveram seus estabelecimentos destruídos pelo choque de ordem do prefeito Eduardo Paes. O alvo dos tratores da prefeitura foram as tradicionais tendinhas e barracas na entrada da quadra da escola de samba Estação Primeira de Mangueira. Segundo a prefeitura, os estabelecimentos foram removidos porque ocupavam uma área pública. No entanto, os trabalhadores, a maioria mulheres, dizem que tanto o atual gerente municipal, Eduardo Paes, quanto o seu antecessor, Cesar Maia, prometeram-lhes mundos e fundos durante suas campanhas eleitorais. Entre as promessas estavam a concessão de alvará para os comerciantes e a revitalização de seus estabelecimentos.
No mesmo dia em que o BOPE chegou à favela para dar início à militarização, agentes da prefeitura, sem notificar os trabalhadores, começaram a demolir as barracas uma a uma. Nossa equipe conversou com as vítimas desse novo episódio de abuso por parte da prefeitura contra moradores de favelas e bairros pobres no Rio de Janeiro.
— Tudo aconteceu na véspera do meu aniversário. Quatro horas da tarde, eles chegaram demolindo dois trailers ali embaixo. Aí, nós fomos falar com eles, pois a maioria de nós já estava trabalhando. Eu perguntei: ‘Moço, o senhor vai demolir aqui? Porque nós não recebemos nenhuma notificação, nada’. Ele respondeu: ‘Pode começar a tirar tudo de dentro, porque nós vamos colocar tudo abaixo ainda hoje’. Aí começou o desespero — disse a comerciante Sandra Maria da Silva, de 57 anos.
— Foi tudo muito estranho, porque primeiro eles nos chamaram para uma reunião. Aí, durante a reunião começaram a demolir alguns estabelecimentos. Quando a gente chegou aqui eles já estavam destruindo tudo. De domingo pra segunda eles vieram com um documento nos dando 24 horas para tirar tudo de dentro dos imóveis. Mas não deu tempo de fazer essa desocupação. Quem conseguiu tirar tudo, tirou, mas quem não conseguiu perdeu o que tinha— conta a trabalhadora Kátia Helena Baptista, de 46 anos.
Alguns moradores disseram que estranharam o fato da prefeitura não ter aceitado fazer a reunião no local das demolições. Mesmo assim, todos queriam ouvir as explicações dos agentes responsáveis pela ação. Enquanto a reunião acontecia em uma quadra poliesportiva dentro da favela, longe dos olhos dos trabalhadores, os tratores começavam a destruir as tendinhas aproveitando a ausência dos proprietários. Na verdade, segundo alguns comerciantes, a reunião teria sido apenas um artifício para distrair os trabalhadores e impedi-los de resistir à ação da prefeitura.
Com 68 anos, dona Iracy é uma das mais antigas comerciantes do morro da Mangueira. Ela conta que não quer indenização, mas sim o seu ponto de volta. O local das demolições, embaixo do viaduto da Mangueira, era um tradicional ponto de encontro de sambistas antes dos ensaios, feijoadas, bailes e outros eventos na quadra da escola de samba ou no Buraco Quente — um dos acessos ao morro.
— Desde os 15 anos que eu sou comerciante. Comecei na época em que o morro era dividido entre Chalé e Santo Antônio. Eu morava em Santo Antônio. Minha mãe morava em um barraco de zinco, aí eu abri um buraco no zinco e comecei a vender pastel de sardinha. O pessoal ficava jogando cartas e não tinha o que comer. Por isso, eu vendia pastel e cafezinho. Isso há mais de 50 anos atrás. Nós não queremos dinheiro da prefeitura. Nós queremos que o prefeito cumpra com a palavra dele e nos dê o alvará para podermos trabalhar. É o que eu preciso: passar a minha velhice tranquila. Eu abro a minha portinha ali e tenho o meu trabalho. Vou viver do quê com 68 anos? Catar latinha? — pergunta dona Iracy.
— É muito triste. Lamentável. Agora eu estou desempregada. As contas não param de chegar e eu não tenho outro trabalho. Daqui que saía o meu pão, o meu leite, o meu gás. Tudo saia desse meu comércio. Agora estamos há três semanas parados sem uma solução — desabafa a trabalhadora Vilma da Glória de Souza, de 44 anos.
Segundo os comerciantes, em troca dos seus estabelecimentos, a prefeitura deu a eles barracas de lona sem água e sem luz. O trabalho é dobrado, já que a prefeitura nem ao menos ajuda os trabalhadores a montar as estruturas.
— Eles nos deram umas barracas para a gente poder trabalhar na frente da quadra, mas só que sem luz, sem água e sem banheiro. Eles prometeram um banheiro químico, mas até agora não nos deram nada. Nós não temos condições de trabalhar assim. Nós precisamos trabalhar. Você pode ver que a maioria de nós somos mulheres e foi daqui que nós sempre tiramos o nosso sustento. Porque isso aqui era uma vida para nós. Eu, particularmente, estava há 15 anos aqui. Foi um pedaço da nossa vida que foi arrancado de nós, jogado fora — protesta a comerciante Mônica de Oliveira, 45 anos.
Cai mais uma favela da zona oeste do Rio após meses de resistência
Por Patrick Granja / A Nova Democracia
No dia 17 de dezembro, foi a vez da Favela da Restinga — também no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio de Janeiro — ser atacada pela prefeitura. A operação aconteceu um dia após o ataque à favela Vila Harmonia, que fica em frente à Restinga. A favela estava protegida por uma liminar perpetrada pelo Núcleo de Terras da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, mas a blindagem foi derrocada pela prefeitura no dia anterior, o que levou dezenas de PMs, policiais civis e guardas municipais à Restinga logo pela manhã.
Favela da zona oeste do Rio é atropelada pelos tratores da prefeitura
No dia 16 de dezembro, operários da prefeitura, apoiados por mais de 30 policiais civis militares e guardas municipais, foram à favela Vila Harmonia, no Recreio dos Bandeirantes, zona oeste do Rio de Janeiro, para demolir as casas de dezenas de famílias. As opções dadas pela prefeitura para os moradores, muitos deles há 40 anos no local, foram ultrajantes. Casas que valem até 40 mil reais foram avaliadas em 5 mil reais pela prefeitura. Os que não aceitaram o valor foram ameaçados de despejo sem outra alternativa habitacional, que não os obscuros abrigos da prefeitura, ou um apartamento do projeto Minha Casa, Minha Vida, em Campo Grande, há 40 quilômetros do local. Mesmo assim, os moradores teriam que pagar por esses apartamentos.Vila Taboinha resiste a ação violenta do Estado e garante a posse de suas terras
Trabalhadores em luta por moradia no Recife são atacados pela PM e resistem bravamente
Por Patrick Granja / A Nova Democracia
No dia 20 último, no bairro Boa Viagem, zona Sul de Recife, e em Dois Irmão, zona Oeste, policiais da tropa de choque provaram um pouco da ira dos trabalhadores que lutam por moradia no estado de Pernambuco.
No Primeiro episódio, na manhã da última quinta-feira, centenas de moradores da comunidade Portelinha bloquearam a rodovia PE-05 para protestar contra um mandato de reintegração de posse na área onde se localiza a ocupação. A polícia foi enviada para o local para reprimir a manifestação. Logo que chegou, a tropa de choque foi recebida com paus e pedras pela massa enfurecida, que destruiu duas motos e um carro da polícia. Rosângela Maria da Silva, uma das moradoras da Portelinha que participava do protesto, mesmo grávida, foi agredida na barriga com golpes de cassetetes por um policial e levada para um hospital da região onde continua internada. Os moradores exigem um auxílio-moradia ou a cessão de um lugar para abrigar as cerca de 50 famílias da comunidade.
Já em Boa Viagem, moradores da ocupação Pantanal, bloquearam a avenida Domingos Ferreira para protestar contra a demolição de 15 casas para a realização de obras da Via Mangue. Mas nem a manifestação pôde conter os tratores do gerenciamento fascista de João da Costa. Há tempos que a paciência dos trabalhadores sem-teto de Pernambuco com o prefeito chegou ao seu limite. Na segunda-feira, dia 10 de maio, dezenas de manifestantes do movimento sem-teto atacaram a sede da prefeitura para protestar contra uma fraude no cadastramento de famílias para as 128 novas unidades do Conjunto Habitacional Zeferino Agra.
Rio de Janeiro: Choque de ordem continua massacrando trabalhadores pobres
Mais uma vez, AND traz, na íntegra, a rotina de abusos cometidos pelo “choque de ordem” de Eduardo Paes, contra trabalhadores pobres no Rio de Janeiro, política fascista que já completa nove meses, farta de aplausos dos reacionários de plantão.
Dia 30 de agosto, durante operação na orla de Ipanema, bairro com o metro quadrado mais caro do Rio de Janeiro, enquanto jovens que moram no local fumavam maconha livremente na areia da praia, seis vendedores de limonada tiveram seu material de trabalho confiscado por agentes da prefeitura. Sete kombis, usadas pelos trabalhadores como depósito de mercadorias, também foram atacados pelos guardas. No dia 9 de setembro, as equipes do “choque de ordem” foram à estrada de Jacarepaguá, próximo a favela Rio das Pedras (Zona Oeste do Rio), onde promoveram nova onda de destruição, reduzindo a pó e entulho um prédio de seis andares onde moravam 38 pessoas, num total de 11 famílias, que agora não têm para onde ir.
No dia seguinte, as demolições continuaram, desta vez no bairro de Higienópolis, próximo à favela Nova Brasília, na zona norte da cidade. Na ocasião, foram destruídas 119 barracas onde camelôs trabalhavam há mais de quinze anos e um prédio de dois andares na esquina da avenida Itaóca com a Rua Aripibuí, onde funcionavam pequenas lojas de roupas e material de construção. Entre as estruturas estavam uma barbearia, uma peixaria, um chaveiro e dezenas de comerciantes de roupas, bijuterias e alimentos.
— Derrubar barraco e reprimir o pobre trabalhador é fácil. Quero ver acabar com aquela obra na avenida Itaóca com a Adhemar Bebiano que já tem mais de 2 anos e está parecendo o fim do mundo de tanta sujeira. Lamentável esse prefeito que não pensa no povo — protestou o morador de Higienópolis e operador de telemarketing, Bernardo da Silva Lira, de 25 anos.
Mesmo assim, o foco das ações continua sendo o Recreio dos Bandeirantes, onde sete prédios já foram varridos desde o início do “choque de ordem”. Locais que serviam de moradia para dezenas de famílias, agora desabrigadas, hoje tornaram-se depósitos de lixo, como mostra a imagem acima. No dia 15 de setembro foi a vez dos flanelinhas serem reprimidos pelas equipes da Seop — Secretaria Especial de Ordem Pública — juntamente com as polícias civil e militar, que prenderam um total de dez guardadores de carros que trabalhavam nas ruas do Centro, onde no mesmo dia à noite, 54 moradores de rua foram retirados das calçadas e levados para as masmorras que Eduardo Paes chama de “abrigos”.
Joaquim José Pinto é vendedor de churrasquinhos em uma rua da Tijuca há mais de 20 anos e em abril relatou à reportagem de AND o roubo de seu material de trabalho por agentes do “choque de ordem” no dia em que foi realizada uma partida de futebol no estádio Maracanã, próximo ao local de trabalho de Joaquim. Até hoje, o senhor de 57 anos não conseguiu recuperar os objetos confiscados e está desempregado desde o dia da repressão.
— Isso é um “choque de tristeza” na nossa vida. Mesmo com dificuldade, a gente conseguia levar quando eu tinha meu lugarzinho. Depois de 20 anos de trabalho, todo mundo me conhecia. Sem fazer nada não posso ficar, então estou fazendo bico, varrendo a calçada dos outros, entregando compras. Esse choque de ordem está sendo um pesadelo na vida do trabalhador. Minha mulher sai de casa e deixa as crianças sozinhas, mas não tem jeito, ela tem que trabalhar também, porque o dinheiro que eu ganho não está dando para colocar nem a comida dentro de casa — lamenta Joaquim.
Choque de repressão no Rio de Janeiro é crime contra o povo
Por Patrick Granja / A Nova Democracia
Como AND vem noticiando desde o inicio da nova gerência municipal, o ‘choque de ordem’ segue castigando o povo pobre em toda a cidade. Dia 24 de junho, no mercado São Sebastião, zona norte da cidade, trabalhadores foram duramente reprimidos em nova operação deflagrada pela secretaria especial de ordem pública (Seop). Na ocasião, 25 pequenos estabelecimentos comerciais foram destruídos por quatro pás mecânicas, seis caminhões e três retro-escavadeiras. A ação criminosa é parte do projeto de ‘reurbanização’ e ‘requalificação econômica e social’ do mercado São Sebastião, coordenado pelo Instituto Pereira Passos e que está abrindo caminho para Eduardo Paes e seu rastro de destruição.
Dois dias depois — pela terceira vez em sete meses — o ‘choque de ordem’ foi ao Recreio dos Bandeirantes e destruiu outro edifício, aumentando ainda mais o número de trabalhadores que tiveram a casa reduzida a pó na região. Foi às 7h da manhã, quando cerca de 120 agentes — entre policiais civis e militares e funcionários da Comlurb — chegaram a Rua 2 W, onde o alvo era um prédio de três andares com quase todos os apartamentos ocupados.
Uma semana antes, em operação deflagrada na favela Rio das Pedras, zona oeste da cidade, na localidade conhecida como Curva do Pinheiro a prefeitura destruiu três prédios, cada um com seis andares, deixando dezenas de trabalhadores na rua. Desde janeiro o ‘choque de ordem’ já demoliu 10 prédios em Rio das Pedras, o equivalente a cerca de 300 unidades habitacionais.
No mês de julho as demolições continuaram. Dia 7, equipes da prefeitura foram à rua Imperatriz Leopoldina em Jacarepaguá e derrubaram sete prédios, cada um com dois andares e cerca de 30 apartamentos. Um dos moradores, desesperado, resistiu e acabou preso por desacato à autoridade.
Segundo o balanço geral do ‘choque de ordem’, desde o início das operações 50 imóveis já foram demolidos pela prefeitura — o que equivale a cerca de 400 unidades habitacionais —, mais de 3 mil moradores de rua foram recolhidos, sendo 763 crianças, e outros 273 foram presos, sendo 23 crianças. O total de mercadorias ‘apreendidas’ pela repressão a camelôs e outros trabalhadores pobres também assusta. Foram 21 toneladas de materiais perecíveis e mais de 225 mil produtos de gêneros variados. Quase 500 trabalhadores foram presos, entre comerciantes e guardadores de carro.
‘Vigiados’ como criminosos
Enquanto isso, nos bairros pobres da zona Sul da cidade, novas ‘unidades pacificadoras’ são inauguradas pela gerência estadual, incrementando mês a mês a criminalização da pobreza e minando pontualmente a organização do povo nas favelas.
Já em funcionamento no Santa Marta, na Cidade de Deus e no Batam, dia 10 de junho foi a vez dos morros Chapéu Mangueira e Babilônia receberem o policiamento permanente da PM com a proposta de levar ‘segurança’ para os moradores e reprimir o tráfico varejista, mas que nas outras comunidades só tem servido para aumentar o medo e limitar os direitos básicos dos moradores, que denunciam agressões, invasões de domicílios, provocações e toques de recolher.
No início de junho, Cabral foi à favela Santa Marta na companhia do ex-prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, que durante a administração da cidade ianque implementou o programa conhecido como ‘tolerância zero’, que assim como a política fascista imposta pelas gerências de turno no Rio de Janeiro, previa o combate ao crime por meio de um ataque violento às camadas mais pobres da sociedade, o que resultou no assassinato de centenas de trabalhadores inocentes pelas forças de repressão do Estado, a exemplo do que vem acontecendo aqui.
Além da ‘unidade pacificadora’, no Santa Marta, assim como na Rocinha, muros continuam sendo erguidos no entorno da comunidade, mesmo depois de comprovada a estagnação do avanço das construções em direção à mata. Segundo pesquisa realizada pela ONG Rio Como Vamos, em 1999 as favelas da zona Sul ocupavam 4.178.368,29 m². Em 2004 ocupavam 4.176.716,22. E 4.175.540,10 em 2008, dados que apontam uma diminuição do tamanho dessas comunidades, contrariando o argumento usado pela gerência estadual para o rebaixamento de bairros pobres a guetos, justamente nas partes ricas da cidade, onde também se concentram as ações do ‘choque de ordem’.
Motoristas de vans seguem resistindo
Às 4h da madrugada do dia 23 de junho, motoristas de vans de diversas partes do estado do Rio já estacionavam seus veículos na porta do Palácio Guanabara, sede da gerência estadual, para cobrar satisfações de Sérgio Cabral sobre o edital de licitação para o transporte complementar, elaborado pelo Detro — Departamento de transportes rodoviários — e pela secretaria estadual de transportes.
Segundo o edital, o atual número de vans intermunicipais em circulação, seria reduzido das atuais 1,8 mil para 671 veículos, o que deixaria cerca de 60% dos motoristas que fazem itinerários intermunicipais sem licença para trabalhar.
Por volta das 9h da manhã, quando já havia mais de mil trabalhadores em frente ao Palácio Guanabara, a tropa de choque da PM chegou atirando bombas e balas de borracha contra os manifestantes que resistiram com pedras e paus. Na ocasião, os motoristas foram duramente criminalizados pelo monopólio dos meios de comunicação que chegou a publicar calúnias contraditórias, como uma suposta relação dos trabalhadores com os grupos paramilitares chamados de “milícias” em favelas do estado, que de acordo com investigações da própria secretaria de segurança pública, são compostas na sua maioria por policiais, como os que atacaram a manifestação.
— Não somos bandidos, somos trabalhadores. Cabral não cumpriu com as promessas que fez e ainda quer tirar nosso trabalho? Viemos agora para cobrar e fomos recebidos com violência pela polícia — disse José Maurício Filho, que faz o itinerário Araruama/Central do Brasil.
Nos dois primeiros dias de julho motoristas de vans voltaram a protestar, desta vez na porta do Detro, na rua do Rosário, Centro da cidade, já que no início da mesma semana uma grande manifestação que seria realizada nas ruas do Centro foi reprimida pela PM com bloqueios alocados nas principais vias de acesso a cidade, onde motoristas de vans eram impedidos de passar. Para as próximas semanas, os trabalhadores já anunciaram novos protestos e prometem não recuar enquanto a gerência estadual não rever as condições previstas no edital.
Moradores do morro do Estado exigem justiça
No dia 28 de julho serão julgados os 12 policiais envolvidos na barbárie conhecida como a chacina do morro do Estado, na cidade de Niterói. Na ocasião, dia 3 de dezembro de 2005, PMs invadiram a favela, feriram um menino e mataram outras cinco pessoas, a maioria crianças. Foram mortos Wellington Santiago Oliveira Lima, 11, Luciano Rocha Tavares, 12, Edmilson da Conceição, 15, José Maicon dos Santos Fragoso, 16, e Uédison da Conceição Silva, 24 anos. Uma outra criança de 13 anos foi baleada em uma das pernas, mas sobreviveu. Segundo parte do relatório final de uma investigação realizada na época pela Comissão de Direitos Humanos da Alerj, o então presidente da comissão, Geraldo Moreira afirma que “o grupo trabalhou com informações concretas. Uma delas é que só havia marcas de tiro do lado oposto ao que estavam os PMs. Logo, conclui-se que eles tiveram participação”.
Fernanda Antônio de Oliveira, de 32 anos, mãe de Wellington Santiago, que hoje teria 15 anos, diz que sua maior esperança agora é na condenação dos policiais acusados de assassinar seu filho.
— Não podem restituir a vida do meu filho, mas podem punir os responsáveis. Se houver algum criminoso, tem que prender, não matar. Temos que trabalhar no sentido de responsabilizar quem praticou esse ato. Meu filho nunca quis saber de armas. Seu maior sonho era ganhar uma caixa de engraxate para me ajudar nas contas da casa. Você luta pra dar o melhor para ele e de repente é tudo interrompido por pessoas que você nunca viu na vida. Aqueles tiros todos numa criança de 11 anos que não estava armada? Não sinto medo, quem perde não sente medo, sente dor. Comunidade é uma realidade bem dolorosa, a gente não tem chance de nada, não tem chance de continuar nossa luta, somos sempre interrompidos por quem tem mais — desabafa.
Moradores do morro do Estado, juntamente com outras vitimas da violência, organizações e movimentos que lutam pelo direito dos povos, como o Cebraspo — Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos — uniram-se em um comitê de mobilização, que até o dia do julgamento fará panfletagens e manifestações em diversos pontos de Niterói exigindo justiça para os responsáveis por mais essa, dentre inúmeras barbaridades cometidas pelo Estado criminoso contra o povo pobre nas favelas do Rio de Janeiro e de todo Brasil.
PM invade ocupação deixando vários
trabalhadores feridos e desabrigados
Além das demolições, as ‘reintegrações de posse’ em ocupações de movimentos que lutam por moradia também têm se tornado uma prioridade do ‘choque de ordem’ de Eduardo Paes. Na mesma manhã em que destruiu prédios no Recreio dos Bandeirantes, equipes da prefeitura, apoiadas pela tropa de choque da PM de Cabral, chegaram à ocupação de um edifício do INSS na Avenida Mem de Sá, no Centro da cidade, dando ordem para que todos saíssem. Os moradores resistiram, até o momento em que policiais entraram no local atirando bombas de gás e usando spray de pimenta, ferindo mulheres e crianças.
Elizabeth Santos Landivau tem 56 anos e cuida de dois netos órfãos. Junto com ela, na ocupação viviam camelôs, artesãos, mecânicos, operários e outros trabalhadores, tratados como marginais pelas gerências de turno de Paes, Cabral e Luiz Inácio. Segundo Elizabeth, os moradores estavam organizados há 20 meses em um prédio da Gomes Freire e promoviam mutirões para limpeza, divulgação e ligação de esgoto e água, realizavam assembléias semanais e já possuíam até uma biblioteca. Depois de um incêndio suspeito, eles foram forçados a ir para a rua, onde permaneceram por quase um mês, partindo em seguida para o edifício do INSS na Avenida Mem de Sá, de onde foram brutalmente despejados pela PM.
— A gente estava em um prédio de 18 andares no número 510 da Gomes Freire, que pegou fogo. Éramos 72 pessoas distribuídas em 37 famílias. Aí a prefeitura usou a questão do incêndio, muito suspeito, aliás, e através de laudos e do juiz, pediu 72 horas pra gente ficar na rua, mas nós ficamos embaixo da marquise e conosco havia um bebê recém nascido de 18 dias. As 72 horas do juiz se transformaram em 28 dias em que nós ficamos embaixo daquela mesma marquise. Posteriormente nós recebemos a informação de que havia um prédio vazio do INSS na Mem de Sá e partimos para lá — conta ela.
Além de todo descaso, dona Elizabeth também relata uma tentativa do conselho tutelar de confiscar as crianças, já feridas pelas bombas e pelo gás de pimenta utilizado pela PM na recente desocupação.
— Nós estamos lidando com um prefeito que não tem nenhum escrúpulo e nem ao menos pode ser considerado um ser humano. A gente está aqui no frio, na chuva. Esperando novamente a repressão da polícia. Eu já estou com a minha vista totalmente debilitada por causa do gás de pimenta. Ficamos lá de domingo à noite até a sexta-feira, quando a polícia de choque chegou jogando bomba pelas janelas com todos lá dentro. Feriram mulheres e crianças, muitas pessoas estão parcialmente cegas, como eu. Mas já fui à defensoria pública e prestei meu depoimento. Depois de tudo isso nós viemos para cá [Rua Pedro Lessa, no Centro do Rio]. Já recebemos repressão do conselho tutelar dizendo que nossas crianças não podem ficar na rua. E elas vão ficar aonde? Nós todos vamos morar aonde? Já tiraram nossas moradias e agora estão usando isso tudo como pretexto para tirar nossos filhos — lamenta.
No dia 7 de julho, na quarta operação em menos de dois meses, o ‘choque de ordem’ expulsou os trabalhadores da rua Pedro Lessa, e pela terceira vez em menos de dois meses os moradores da antiga ocupação do número 510 da rua Gomes Freire não têm para onde ir.





