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Archive for 6 de dezembro de 2011

Rocinha é a bola da vez da militarização

Por Patrick Granja e Murilo Marques Filho, especial para o jornal A Nova Democracia

Na madrugada do dia 12 para o dia 13 de novembro, 3,2 mil homens das polícias Civil e Militar, além de fuzileiros navais subiram os morros da Rocinha, Vidigal e Chácara do Céu, abrindo caminho para a 19ª Unidade de Polícia Pacificadora. A bordo de 18 veículos da marinha e sete caveirões da PM, os militares contaram ainda com a ajuda de 160 policiais federais e 46 homens da Polícia Rodoviária Federal. Durante a ocupação, que lembrou as paradas militares do exército reacionário, os agentes de repressão do velho Estado revistaram imóveis e moradores. Enquanto isso, o monopólio dos meios de comunicação ocupava-se com a publicidade da futura UPP, tecendo elogios mil à militarização e insinuando que a paz chegara à Rocinha. Paz ou medo? Eis a questão.

No dia 10 de novembro, a reportagem de AND subiu o morro do Vidigal para fazer um balanço do clima no Complexo da Rocinha às vésperas da ocupação pelas tropas do Estado reacionário. Na ocasião, nossa reportagem percorreu as vielas da favela e conversou com moradores. Todos diziam que os traficantes varejistas que dominavam a região já haviam fugido e o clima era de aparente tranquilidade. Mesmo assim, o circo da guerra aos pobres montado pelos gerenciamentos de turno não foi cancelado. Uma legítima parada militar para inglês ver.

As três favelas do Complexo da Rocinha têm quase 200 mil habitantes e ocupam as bases do morro Dois Irmão e do Maciço da Tijuca. As favelas dividem espaço com a Gávea, São Conrado e Leblon, esse último bairro detentor do título do metro quadrado mais caro do Brasil. Quatro dias antes da invasão ao complexo, os chefes do tráfico na Rocinha e Complexo de São Carlos, conhecidos como Nem e Coelho, respectivamente, foram presos pela polícia e exibidos como troféus pelos gerentes de turno. Ambos os traficantes estavam sendo escoltados por policiais militares e civis quando tentavam fugir da Rocinha.

 História mal contada

Quando foi preso tentando escapar da favela no porta-malas de um carro de luxo, o traficante Nem estava de posse de 200 mil reais e acompanhado dos advogados André Luis Soares Cruz, que disse ser cônsul honorário do Congo; Demostenes Armando Dantas Cruz, que afirmou ser funcionário do consulado; e Luiz Carlos Cavalcanti Azenha. Muito influentes, os dois últimos citados são grandes aliados políticos de outro advogado, Jovenal da Silva Alcântara, assessor especial do gerente estadual Sérgio Cabral Filho. Como se não fosse o bastante, um delegado da Polícia Civil abordou o comboio da PM que conduzia o carro para a sede da Polícia Federal e também tentou liberar o veículo.

Estranhamente, nos dias seguintes, a cúpula da Polícia Civil se pronunciou em favor do delegado e dos advogados que estavam com Nem no carro. A versão dada pelo gerenciamento Cabral foi de que eles negociavam a rendição de Nem, o que aconteceria depois que o carro deixasse a favela. Resta saber porque um bandido levaria 200 mil reais para sua rendição, dinheiro esse oferecido pelos advogados que acompanhavam o traficante aos PMs que escoltavam o veículo. À Polícia Federal, o traficante disse repetidas vezes que não pretendia se entregar, mas o secretário de segurança, estranhamente, diz o contrário.

 Para inglês ver

Três dias depois, às 2h da madrugada, tanques blindados subiam as favelas do Vidigal, Rocinha e Chácara do Céu, esmagando carros de moradores como latas de sardinha e abrindo enormes crateras nas ruas. Atrás dos blindados, 3,2 mil policiais revistavam moradores e suas casas. Aqueles que não estavam em casa tiveram suas portas arrombadas pelos policiais, como de praxe.

Dias antes, o comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), coronel René Alonso, chegou a se reunir publicamente com moradores para pedir-lhes paciência, referindo-se às revistas em residências sem mandado judicial. Na companhia do vice-governador, Luiz Fernando Pezão, o coronel disse ainda que aqueles que se recusassem a abrir suas casas seriam reprimidos com violência. Um claro sinal de que, diferente do que disse o monopólio da imprensa, o Bope não veio para pedir e sim para mandar.

Na TV, Sérgio Cabral, o secretário de segurança, José Mariano Beltrame, e a chefe da Polícia Civil, Marta Rocha, falaram uma, duas, inúmeras vezes, que agora uma nova era seria inaugurada no Complexo da Rocinha. Que agora, o ‘poder público’ subiria o morro. Que agora, o trânsito seria organizado, o lixo recolhido e o sistema de iluminação revitalizado. No entanto, os moradores sabem que o abandono continuará — falta de escolas, creches, hospitais, saneamento, emprego, etc —, agora incrementado com a opressão policial em tempo integral. É o que disse o presidente da associação de moradores do Vidigal, Wanderlei Ferreira, em um breve bate-papo com nossa reportagem.

O governador está falando para a classe média que vai compensar os 40 anos de abandono do poder público aqui, em apenas dois meses. É mentira. Porque nós não queremos só obras de maquiagem. Colocar lâmpadas novas, varrer o lixo e recapear as ruas é mole. Nós queremos escolas, pois as nossas não têm professores o suficiente, nós queremos que acabem com o esgoto a céu aberto, nós queremos postos de saúde sem falta de remédios e profissionais. O Estado não vai nos dar isso, nem em dois meses, nem em dez anos, porque os moradores sabem que eles não têm esse interesse. A verdade é que todos estão com medo da polícia. Nós sabemos como a PM age na favela. Todos sabem — diz o líder comunitário.

 A discreta expulsão

Ele também afirma que, após o início da militarização, o preço dos imóveis no Complexo da Rocinha subiu muito e que os moradores antigos estão sendo substituídos por pessoas de classe média, turistas de outros países e outros estados e empresários do setor imobiliário.

A luta da associação, há mais de 40 anos, sempre foi contra a especulação imobiliária. Nosso medo sempre foi do asfalto subir o morro e expulsar o morador. O vice-governador disse que, até o final do ano, vai distribuir 5 mil títulos de propriedade provisória. Aqui nós temos 50 mil moradias. E as outras 45 mil? Vários gringos, paulistas, mineiros estão comprando casa aqui. Eles não pagam taxas e o preço do imóvel, na maioria dos casos, é irrisório. E o morador já está começando a sair. O pessoal que está em área de risco, o governo disse que vai colocar naquelas casas do programa ‘Minha Casa, Minha Vida’, lá em Campo Grande. Uns apartamentos que parecem caixas de fósforo: tá ali, bonitinha, até chover. Quando chove, o troço desmancha. O morador não quer isso. Nem que fosse uma boa casa, ele não quer ir para Campo Grande — queixa-se.

Segundo uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, um dia após a entrada da polícia no Complexo da Rocinha, os preços dos imóveis tiveram um aumento de até 15 mil reis. Ainda segundo a pesquisa, os aluguéis nas favelas militarizadas tiveram uma valorização média de 6,8% superior à do ‘asfalto’. De acordo com os dados, antes das UPPs, os aluguéis nessas favelas eram 25% mais baixos.

 Registros de abusos

Dias depois que nossos colaboradores conversaram com Wanderley, os primeiros abusos de PMs contra moradores já começavam a ser registrados. Um morador que preferiu não se identificar teve sua casa invadida por policiais do Bope que reviraram o imóvel e furtaram fotos íntimas dele com a esposa.

Eu cheguei em casa, abri a porta e estava tudo revirado. Todas as roupas dos armários jogadas no chão. As gavetas quebradas, papéis espalhados, uma bagunça. Quando olhei as coisas pra ver se algo tinha sumido, dei falta de umas fotos da minha mulher. Porque eles levaram isso? Vão falar o quê? Que eu sou bandido e minha mulher é vagabunda? Morando em uma quitinete e trabalhando em loja de roupas? Isso é um absurdo. Na delegacia, os policiais não quiseram registrar ocorrência. Disseram que eu ia ter que esperar três horas. Eles tratam a gente que nem lixo — contou o homem, que é operário da construção civil.

A vizinha dele, que testemunhou a invasão, ficou quase uma hora detida sofrendo tortura psicológica dos policiais.

Eles diziam ‘Cadê a droga? Cadê as armas? Qual é o cargo do seu vizinho no tráfico?’. Eu falei que eles estavam no lugar errado. Que ali todos éramos trabalhadores, mas não adiantou. Eu precisava ir trabalhar e eles não deixavam. Ficaram vários homens de preto, com os fuzis na minha cara e me tratando como se eu fosse bandida. Por essas e outras, que a gente que mora em favela não gosta de polícia. Pode perguntar. Quem aqui nunca sofreu um abuso da polícia? Todo mundo. Mas para eles, se você é contra a polícia, você é fechado com o tráfico — diz.


Nilo Batista: “Militarização das favelas no Rio de Janeiro é um estado de sítio inconstitucional”

Por Patrick Granja, especial para  jornal A Nova Democracia

No mês de novembro, a reportagem de AND, juntamente com a equipe da Agência de Notícias das Favelas, foi ao Instituto Carioca de Criminologia, sediado no tradicional bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Nossa tarefa era entrevistar seu fundador, o advogado e professor Nilo Batista. Em um breve bate-papo, o jurista condenou veemente a militarização das favelas do Rio de Janeiro e disse que a iniciativa é um atentado aos direitos constitucionais de seus moradores. Ainda segundo ele, essa nefasta política dita de segurança pública não seria viável sem o suporte publicitário do monopólio dos meios de comunicação.

Enquanto as UPPs avançam sobre uma das maiores favelas do mundo — a Rocinha — a população das regiões já militarizadas segue denunciando o regime de exceção instaurado pelo Estado nesses locais. O advogado criminalista Nilo Batista, ex-vice-governador do estado do Rio de Janeiro e fundador do Instituto Carioca de Criminologia, é um dos destacados denunciantes dessa obscura política nutrida pelos gerenciamentos Cabral, Paes e Roussef.

A UPP, antes de mais nada, é uma iniciativa completamente inconstitucional, que tem o apoio da grande mídia acrítica. A série de restrições a que os moradores dessas favelas são submetidos só seria possível se fosse decretado estado de sítio ou estado de defesa, consultado o conselho da república, o conselho de defesa e o congresso nacional. Só assim seria possível levar a cabo essas restrições em território brasileiro, porque ali, a constituição não está tendo vigência. A começar pelo simples direito de ambulação, do qual essa grande mídia costuma ser tão ciosa, esse direito de ir e vir, um direito tão elementar, é proibido porque acontecem toques de recolher. Outra questão são as festas e manifestações culturais serem tutelados por uma autoridade policial militar. Isso é absolutamente inconstitucional — garante o jurista, que em seguida aponta o monopólio dos meios de comunicação como mentores publicitários desse estado de sítio.

Se isso não estivesse ligado aos grandes lucros que virão dos megaeventos esportivos que acontecerão no Brasil, nos quais a mídia tem a fatia mais importantes, através dos milionários contratos de publicidade e patrocínio, já tinha ido para o ralo esse negócio de UPP. Porque os fracassos, os abusos já estão muito evidentes. Isso não é polícia de proximidade. Isso é polícia de conflito. É completamente irracional a segurança pública ser o eixo das outras políticas públicas. Pobres os locais onde a polícia é o veículo dos outros serviços — critica Nilo.

Nesse avanço do Estado de polícia, a pena virou uma divindade no Brasil, o que é muito ruim. E aí, eles dão voz aos explicáveis sentimentos de vingança das vítimas, alavancam isso tudo, procuram criar clamor popular, etc. Faça uma manifestação pedindo a descriminalização do crime de apologia, que é claramente inconstitucional diante da liberdade de manifestação prevista na constituição. Não vai haver uma nota nos jornais. Claro. Pois são jornais antipopulares, que só olham o povo com os olhos do choque de ordem, com os olhos do higienismo, com os olhos do ‘bota abaixo’, com os olhos das oligarquias sanguinárias, fascistas, que sempre mandaram nesse país e continuam mandando. Agora, faça uma manifestação para pedir pena. Se tiver pouca gente, eles vão usar ângulos de filmagem e fotografia mais fechados, vão dizer que estava cheio, que tinham muitas pessoas. Vão dar todo o espaço nas páginas dos jornais — protesta o advogado criminalista.

Em seguida, Nilo Batista criticou a ocupação dos Complexos dos Alemão e da Penha pelo exército e disse que a iniciativa configura um atentado à constituição.

O adestramento das forças armadas é feito para a guerra, que é um lugar de não-direito. O do policial é feito para o direito, para a legalidade. Na organização militar, a obediência, a ordem, devem ser vinculantes. A legalidade não está em questão. Até porque você está em um ambiente de não-legalidade. O policial tem o dever de checar a legalidade de uma ordem que lhe for atribuída. Coisa completamente diferente no âmbito militar. E essa aproximação entre o poder punitivo e suas agências e o poder militar é muito ruim para a democracia. Se você olhar para o século XX, que foi um século com muitos genocídios, perto de cada genocídio você vai encontrar, ou forças policiais militarizadas, ou forças militares com funções policiais. É com essa receita que, no Complexo do Alemão, nós estamos caminhando inadvertidamente — aponta o jurista.

Sobre a censura sofrida pelas reportagens de AND e ANF no Alemão, na ocasião em que soldados tentaram impedir os jornalistas de registrar imagens, Nilo diz ser mais um sinal desse estado de sítio inconstitucional.

Só com estado de sítio seria possível isso. É um sinal desse autoritarismo com o qual a gente convive e que essa grande mídia silencia porque ela é sócia dos lucros disso — diz.

O jurista também comentou a prisão de quatro operários do PAC, moradores do Complexo do Alemão, acusados de desacato por soldados do exército e encarcerados durante quatro dias em uma prisão estadual.

Ainda que eles fossem condenados pelo desacato, eles não cumpririam pena privativa de liberdade. A relação que nós observamos entre os desacatos lavrados em favelas com UPPs e os abusos de autoridade de policiais é a mesma relação que encontramos entre os homicídios e os autos de resistência nas favelas. Ou seja, atrás de cada desacato lavrado em favelas com UPP, na maioria dos casos, existe um crime de abuso de autoridade cometido pelo mesmo PM supostamente desacatado. Isso nunca é investigado, porque, quando arquivam o desacato, arquivam o abuso também. Uma vez, eu defendi uma senhora do morro dos Prazeres que questionou a atitude de um PM que agrediu o filho dela e foi presa por desacato — relata.

Essa é mais uma das consequências de um estado de sítio inconstitucional, que foi decretado por um secretário de segurança, por um governador de estado, contrariando a constituição. E a mídia silencia, porque nada pode atrapalhar os seus lucros que estão por vir. Essa política tem que ser um sucesso de qualquer maneira, nem que seja, sem trocadilho, na porrada, como está sendo — conclui Nilo Batista.

 (*) Nilo Batista é ex-vice-governador do Rio de Janeiro (na gestão de Leonel Brizola), jurista, fundador do Instituto Carioca de Criminologia, o ICC, professor do quadro permanente do Programa de Mestrado em Direito da Universidade Cândido Mendes, professor titular de Direito Penal na UERJ e na Faculdade Nacional de Direito da UFRJ.


Um ano de ocupação militar no Complexo do Alemão

Miséria e opressão sob as rédeas do novo comando

Por Patrick Granja, especial para  jornal A Nova Democracia

Em novembro do ano passado, 1,6 mil soldados do exército subiam o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, para ocupar permanentemente o conjunto de favelas. A ação foi marcada por inúmeras denúncias de abusos dos agentes de repressão do velho Estado, como torturas e saques a casas e estabelecimentos comerciais de moradores. Depois de um ano, o regime de exceção imposto aos trabalhadores do Complexo do Alemão segue vigorando. No entanto, a paciência dos moradores, pouco a pouco, vai se esgotando, enquanto agrava-se o tom das denúncias das barbaridades cometidas por soldados contra a população. Tráfico varejista por exército reacionário: seis por meia-dúzia.

Com a proximidade da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, muita coisa mudou na vida do povo pobre no Rio de Janeiro. Favelas inteiras foram e continuam sendo removidas das áreas nobres da capital fluminense para dar lugar às grandes construções que irão preparar a cidade para os mega-eventos.

Em outra frente, o Estado reacionário iniciou uma corrida contra o tempo para acelerar o processo de militarização das favelas. As Unidades de Polícia Pacificadora passaram a dividir diplomaticamente o território desses guetos com os traficantes varejistas. Para o povo que habita esses locais, a opressão e a miséria seguem firmes e fortes, agora sob a chefia do velho Estado.

 Um ano de militarização

No Complexo do Alemão, o quadro é o mesmo, porém, são as tropas do exército que comandam a militarização. A ocupação pelas chamadas ‘forças de pacificação’ começou em novembro do ano passado após onda de ataques a ônibus e patrulhas policiais, supostamente orquestrada por traficantes. 106 ônibus foram incendiados na ocasião. Contudo, pouco se ouvia falar sobre o assunto nas favelas dominadas pelo tráfico, o que gerou desconfiança sobre a autoria das ações, que ocuparam por semanas as manchetes dos jornais do monopólio. Mesmo assim, Luiz Inácio prontamente patrocinou a invasão do Complexo pelos tanques do exército e marinha, comboiados pela PM e pela polícia civil do Rio de Janeiro. Na semana em que militares entraram nas favelas, 17 pessoas morreram. Começava uma nova era de opressão para os 200 mil moradores do maior conjunto de favelas da América Latina.

Não é a primeira vez que moradores das favelas do Rio são forçados a viver sob a mira dos fuzis do exército reacionário. Em 1992, semanas antes da Eco-92, militares também ocuparam várias favelas, entre elas o Complexo do Alemão. A presença de dezenas de chefes de estado imperialistas teria motivado a ocupação provisória. Em 94 e 95, o exército novamente seria chamado a participar de uma ação conjunta com a polícia: a Operação Rio, com o suposto objetivo de combater o tráfico varejista nas favelas da cidade. Em junho de 1999, nova ocupação durante a Cimeira do Rio, que envolveu autoridades de países europeus e latino-americanos. Em 2008, militares que ocupavam o morro da Providência sequestraram três jovens moradores e os entregaram a bandidos de uma favela dominada pela quadrilha rival à que dominava a Providência. Os três garotos foram torturados por horas e, em seguida, executados.

 “Serra Pelada”

Receosos com a presença de militares e policiais, centenas de moradores abandonaram suas casas por semanas e exilaram-se nas casas de parentes. A maioria, entretanto, estava presa em seus barracos, apavorada com os ininterruptos tiroteios. A reportagem de AND permaneceu durante dias no local e presenciou as exibições pirotécnicas de PMs e soldados do exército. Tiros eram disparados a esmo contra as favelas e raramente uma resposta era ouvida dos traficantes posicionados no alto dos morros. No meio do fogo cruzado, não existia lugar seguro para os moradores.

Passado o bang-bang, as casas desocupadas pelos moradores passaram a ser alvo de saques cometidos por policiais e soldados do exército. Escutas telefônicas feitas pela polícia federal flagraram traficantes negociando fugas dentro de viaturas policiais e caveirões em troca de ouro, PMs e policiais civis comentando o quanto roubaram das casa dos trabalhadores, além de vários outros crimes. Nas escutas, os agentes de repressão comparavam o Complexo do Alemão à Serra Pelada.

Na ocasião, AND já estava há uma semana no local e entrevistou moradores que tiveram roubados desde as ferramentas de trabalho de um operário da construção civil, até um cofre com 30 mil reais de um pastor evangélico. Além disso, eram incontáveis as denúncias de torturas, agressões e depredações, além do número oficial de 17 mortos na ação, número que pode ser maior, segundo moradores.

 A tão falada ‘guerra’

Um artigo recente escrito pelo professor Nilo Batista — advogado criminalista e professor do quadro permanente do Programa de Mestrado em Direito da Universidade Cândido Mendes — ilustra bem a garimpagem levada a cabo pelo exército e as polícias no Complexo do Alemão, assim como a contribuição ideológica do monopólio dos meios de comunicação à política de criminalização da pobreza nas favelas do Rio:

 “Nos jornais de 12 de fevereiro de 2011, estampou-se a prisão do inspetor Trovão, suspeito ‘de ter participado da garimpagem no Complexo do Alemão’, dentro da prática alcunhada ‘espólio de guerra’ (O Globo, p. 21). Ele não só se vestia e se sentia como um soldado em plena batalha dentro de território inimigo, mas, sobretudo, confirmava seus figurinos e sentimentos lendo os jornais. Guerra é guerra.”

 Trovão era um policial civil que ficou conhecido depois da chacina do Alemão, em junho de 2007 — uma mega-operação policial, às vésperas dos jogos Pan-Americanos, que mobilizou 1,4 mil policiais e deixou 19 pessoas mortas. Os laudos cadavéricos apontaram, semanas depois, que a maioria delas foi executada com tiros na nuca, de cima para baixo e a curta distância. No dia do massacre, Trovão foi fotografado caminhando por uma viela do Complexo fumando um charuto, entre vários corpos, vestido com a mesma farda usada pelas tropas ianques no Iraque e no Afeganistão.

 A rebelião

Nos meses seguintes, as arbitrariedades cometidas por militares no Complexo do Alemão foram denunciados inúmeras vezes por moradores. No entanto, pouco era revelado pelo monopólio dos meios de comunicação. Muitos creditavam as denúncias a supostos complôs de traficantes para diminuir a confiabilidade nas tropas.

Além das denúncias de abusos, a repressão levada a cabo pelo exército às festas de rap, funk e samba nos fins de semana no Complexo do Alemão começou a atiçar os moradores. No dia 4 de setembro, veio o estopim. Dezenas de soldados atacaram um grupo de moradores que festejava e assistia a um jogo de futebol no Morro da Alvorada — uma das treze favelas do Complexo. Vários moradores ficaram feridos por tiros de balas de borracha disparados pela tropa, incluindo jovens, idosos e mulheres. As imagens da agressão foram flagradas com uma câmera de celular por um morador do local. O video revoltou os moradores que, nos dias seguintes, espalharam faixas repudiando a presença do exército nas favelas e fizeram combativos protestos em inúmeras localidades do conjunto de favelas.

As manifestações se repetiram nos dias 5 e 6 de setembro. No segundo dia, o tom dos protestos foi radicalizado e o exército tentou dispersar os manifestantes disparando tiros de fuzil para o alto. Nesse dia, nossa reportagem estava dentro do Morro da Alvorada e acompanhou de perto a mobilização dos moradores, que se armavam com paus, pedras e fogos de artifício, prontos para responder à tirania do exército reacionário.

Imediatamente, o monopólio dos meios de comunicação criminalizou a justa luta do povo declarando que as manifestações teriam sido orquestradas por traficantes. Chegaram a dizer que bandidos tentavam retomar o Complexo do Alemão. Rapidamente, moradores interromperam os protestos, sabendo que qualquer um que fosse baleado seria acusado de envolvimento com tráfico. Como disse uma antiga moradora: “só quem mora na favela sabe o que acontece de verdade”.

Os protestos cessaram, mas os abusos das tropas do exército contra moradores ganham um tom cada vez mais assustador. Somente nas últimas semanas, nossa equipe flagrou cerca de dez militares espancando um trabalhador de 42 anos na frente de sua esposa e filhos e, além disso, entrevistamos um jovem operário que foi baleado por policiais e abandonado em um hospital da rede pública depois de ficar por duas horas a espera de socorro.

Mesmo com todas as denúncias de excessos, a militarização está longe de seu fim. Na manhã do dia 24 de outubro, o gerente estadual, Sérgio Cabral, e o ministro da Defesa, Celso Amorim, assinaram um convênio para prorrogar o tempo de permanência do exército no Complexo do Alemão. A previsão inicial era de que ocupação se estenderia até agosto deste ano. Entretanto, com essa nova prorrogação, a desocupação das favelas foi adiada para julho de 2012.

Nos dias 26 e 27, com autorização da justiça, o exército realizou mais uma operação no Complexo do Alemão, alegadamente à procura de armas e drogas. Ao fim da ação, nada havia sido encontrado. Uma mensagem gravada, emitida por um carro de som, indignou os moradores, que se indagavam que tipo de tratamento era aquele. A mensagem dizia: Senhores moradores, o Exército Brasileiro está realizando um mandado judicial em cumprimento da lei. Fechem suas portas e janelas e aguardem orientação. Quando solicitado, abra a porta e aja de maneira educada. Obedeça a todas as instruções. Qualquer ação contrária será considerada como ato hostil e receberá a resposta necessária”.

Indagado por veículos do monopólio dos meios de comunicação sobre o áudio, o comandante das tropas do exército no Alemão, general Cesar Leme Justo, se apressou a dizer que aquilo não era toque de recolher, mas resulta evidente que toda a população do Complexo do Alemão se encontra sitiada e à mercê do arbítrio dos militares.

Como dizem os moradores, “nada mudou. Saiu o comando vermelho e entrou o comando verde”. A mesma opressão e miséria, sob as rédeas de outro comando: o velho, apodrecido e reacionário Estado brasileiro.

Quatro operários presos e um baleado

 Dia 11 de outubro, um operário da construção, morador do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, foi baleado por policiais civis na favela da Grota. O rapaz caminhava em direção à firma onde trabalha, quando policiais da 22ª DP, que faziam uma operação na favela, foram confundidos com bandidos por soldados do exército. Os militares atiraram nos policiais, que revidaram. No meio do fogo cruzado, o trabalhador foi atingido no ombro e teria ficado por duas horas deitado no chão, sangrando, à espera de socorro.

Segundo ele, policiais o abandonaram no hospital, roubaram seus documentos e, ainda na favela, tentaram forjar suas digitais em uma arma e em um saco com drogas.

Eu estava indo na firma onde eu trabalho para resolver um problema. Quando eu ouvi os tiros, tentei correr por uma viela e, na mesma hora, senti um tiro me atingir pelas costas. Quando olhei, vi o policial atrás de mim. Na minha frente, vi que tinham homens do exército respondendo aos tiros da polícia. Eles se juntaram depois e começaram a discutir. Enquanto isso, eu fiquei durante duas horas sangrando no chão. No hospital, eles pegaram a minha identidade e meu título e, quando eu fui ser atendido, outro PM que estava no hospital disse que os policiais civis tinham ido embora com os meus documentos — conta o rapaz que não quis se identificar.

Em outro caso, no dia 18 de outubro, cinco moradores do Complexo do Alemão foram presos por homens do exército próximo à estação do teleférico do Alemão, acusados de desacatar os militares. Quatro deles são operários da obra do Programa de Aceleração do Crescimento no conjunto de favelas. Os trabalhadores ficaram quatro dias presos e, na cadeia, teriam sido agredidos por um agente penitenciário e ficado dias sem dormir, se alimentar e até sem beber água. Eles negam as acusações e afirmam nunca terem sofrido tamanha humilhação.

Eu estou revoltado e quero justiça. Nós não fizemos nada e, mesmo que tivéssemos feito, nada justifica o que nós passamos. Ficamos sem água e comida. Nossas esposas levaram água pra gente, mas não nos entregaram. Tínhamos que fazer nossas necessidade em um buraco. Ficamos em uma cela quente e sem janelas e ainda apanhamos de um agente penitenciário. Trabalho desde jovem. Somos pessoas trabalhadoras, gente de bem. Nunca pensamos que passaríamos por uma humilhação dessas — conta um dos operários.


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